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Transcrição e Libras: Apresentação, por Luiz Fernando Dias Duarte

Transcrição

As duas vidas do Museu Nacional, por Cristiano Mascaro

A força plástica dos registros visuais do Museu Nacional produzidos pela câmera de Cristiano Mascaro – na sua primeira vida, anterior ao incêndio de 2018, e nesta segunda vida que começa a surgir de dentro dos destroços do Palácio de São Cristóvão, exige que se empreenda esta exposição, como forma de incorporar a imagem da velha/nova instituição ao principal congresso brasileiro de antropologia, neste ano de 2020.

Foi no Museu Nacional, ao longo de seu primeiro século de existência, que se constituíram os primeiros esboços do que viria a ser uma antropologia sócio-cultural neste país. Foi um empreendimento lento, de desengate da nova concepção de uma ciência humana irredutível ao substrato físico da espécie, a partir de um amálgama de saberes esparsos e teorias avulsas, de dados e peças heteróclitas, subordinadas ao grandioso projeto de afirmação e expansão da “história natural”.

O que se poderia ver, anacronicamente, como antropológico, cabia na categoria dos testemunhos da “indústria humana”, categoria geral que, na reforma de 1840, veio a se especificar numa nova seção: de “numismática, artes liberais, arqueologia, usos e costumes das nações antigas e modernas”. O tema dos “usos e costumes” incluía a já então numerosa coleção de elementos da vida dos silvícolas do território brasileiro, esses “povos naturais” da emergente etnologia alemã. Só em 1888 foi recriada a “4ª. Seção”, com a incumbência explícita de cuidar da “Antropologia, Etnologia e Arqueologia”.

Pelo final do século XIX, a antropologia do Museu era a então hegemônica “antropologia física”, movida pelos intensos desenvolvimentos da pesquisa sobre a constituição do corpo humano (sobretudo seu crânio e cérebro) e suas implicações para a vida física e moral da espécie. Alguns dos pesquisadores do Museu, como João Baptista de Lacerda, tiveram renome internacional nessa área. Foram interlocutores das novidades surgidas a partir da obra pioneira de Nina Rodrigues, no tocante à cultura afro-brasileira, e favoreceram a teoria do “embranquecimento progressivo” da raça brasileira, em desafio às teorias degeneracionistas que votavam o país à ruína em função do seu grau de miscigenação.

Concomitantemente, tornou-se o Museu o polo focal de discussão e difusão das ideias evolucionistas, de Darwin, de Spencer, de Haeckel. O dinâmico e longevo Diretor Ladislau Netto foi um introdutor central da nova versão do conhecimento sobre a natureza, tendo Fritz Müller, naturalista viajante do Museu, sido um interlocutor direto de Darwin. Em sua gestão, em 1882, foi montada a primeira Exposição Etnológica Brasileira, com materiais culturais em boa parte coletados especificamente para esse fim, em todo o país.

O início da guinada em direção a uma atenção específica para a cultura e a sociedade se deu ao longo da carreira de Edgard Roquette-Pinto, que veio a ser um profícuo Diretor, criador da seção de assistência ao ensino da instituição; numa época em que a batalha pela educação nacional atingia seu píncaro, como antídoto às profecias racistas, magnificadas no entre-guerras. Sua discípula Heloisa Alberto Torres avançou mais ainda no diálogo com a já então bem afirmada etnologia moderna internacional (com Franz Boas, por exemplo). Foi, por sua vez, seu discípulo Luiz de Castro Faria, ainda treinado no espírito abrangente dos “quatro campos”, que se abriu mais generosamente à fermentação internacional e nacional de ideias antropológicas, ensejando que Roberto Cardoso de Oliveira, mais adiante, iniciasse no Museu um processo de treinamento de quadros para a agora chamada “antropologia social”, segundo o uso britânico.

Em 1953, como reconhecimento pela preeminência do Museu nessa história, ali se realizou a 1ª. Reunião Brasileira de Antropologia, em que foi acolhida a proposta de fundação da Associação Brasileira de Antropologia, efetivada na 2ª. Reunião, em Salvador.

Em 1960 teve início o primeiro curso de especialização em Antropologia Social no MN, conduzido por Luiz de Castro Faria e Roberto Cardoso de Oliveira. Com a assinatura do acordo entre o Museu Nacional e a Universidade de Harvard (David Maybury-Lewis), para pesquisas etnológicas conjuntas, e com a obtenção do primeiro apoio financeiro da Fundação Ford, no mesmo ano de 1963, passaram a estar dadas as condições para que, em 1968, fosse criado o mestrado do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (PPGAS), nos moldes da legislação sobre a pós-graduação moderna no país, emanada do Conselho Federal de Ensino em 1965 (o parecer Sucupira). O Programa englobou os setores de Antropologia Social e Etnologia, com uma fértil parceria com o setor de Linguística. O setor de Arqueologia, com o aporte da Antropologia Social, viria também a se estabilizar num programa de pós-graduação, a partir de 2006. A Linguística conta, a partir de 2015, com um Mestrado Profissional em Linguística e Línguas Indígenas.

Com isso se consolidava a vitoriosa trajetória da antropologia moderna no Museu, um exemplo para a comunidade nacional e uma prestigiosa articulação com a comunidade internacional.

***

Quase todo o precioso patrimônio físico amealhado ao longos de dois séculos por tantas gerações, assim como a totalidade da sede do Museu – o Palácio de São Cristóvão – viram-se destruídos pelo incêndio de setembro de 2018. Coleções, exposições, bibliotecas, gabinetes, arquivos, mobiliário, memorabilia, tudo virou cinzas na espantosa fogueira em que o Palácio ardeu.

Sobreviveram algumas áreas físicas, já então sediadas no Horto Botânico do Museu, na mesma Quinta da Boa Vista (a Biblioteca central, os Departamentos de Botânica e Zoologia de Vertebrados, e diversos outros setores). Mas sobreviveram – sobretudo – todos os servidores do Museu, docentes, técnicos, estudantes; feridos na alma, mas presentes e aguerridos para os esforços da reconstrução.

Esta vem avançando bem mais celeremente do que se esperava – ou, melhor, se temia, dado o pouco prestígio geral da cultura, da educação, da ciência e do patrimônio nacional. Tem havido recursos nacionais e internacionais dirigidos para as diversas frentes da reconstrução: a salvação do material resgatado das ruínas, a reforma do Palácio e de seu anexo, a construção paulatina de um novo campus do Museu num grande terreno contíguo, a reforma dos prédios sediados no Horto (inclusive a sede da Biblioteca). Neste mês de outubro inaugurou-se a primeira edificação (ainda provisória) da Administração do Museu e se escolheu o projeto arquitetônico para a recuperação do Palácio. Anda célere o projeto conceitual e museográfico das futuras exposições a ocuparem toda a sede reconstruída. Os cursos de pós-graduação ainda sofrem muito com a falta de espaços próprios para sua atividade docente e para a acolhida geral dos alunos, mas as obras em curso garantem a esperança de uma solução não muito distante. A própria Biblioteca Francisca Keller, uma joia do PPGAS, vai-se recompondo de maneira firme, esperando apenas pelo final da reforma do prédio da Biblioteca central para se reinstalar condignamente, com um poderoso acervo reconstituído.

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É por tantos motivos históricos e científicos que a 32ª. RBA se vê enriquecida pela exposição das reveladoras fotografias de Cristiano Mascaro, que focou o esplendor colorido original do Palácio de São Cristóvão e, em seguida, a acabrunhante máscara de destruição em que ele se transformou. Que tenha sido agora o retrato em preto e branco ressalta o doloroso contraste.

Para nós, do Museu Nacional, é particularmente emocionante esse contraste entre as duas vidas da Casa, a nos estimular ainda mais aos sacrifícios necessários para reconstituir as cores do retrato, pouco a pouco, mas teimosamente, irresistivelmente.

Quem sabe venhamos a poder ver Cristiano Mascaro completar o tríptico dessas vidas, com uma nova série, ainda mais poderosa do que as primeiras, porque imantada pelo sonho e luta ingente da reconstrução a inspirar ainda mais o seu gênio artístico!

Assim será.


Luiz Fernando Dias Duarte, antropólogo do Museu Nacional.

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