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Entre fotos e falas: “pequena história” da antropologia no Brasil

Entre fotos e falas: “pequena história” da antropologia no Brasil

Fabiana Bruno, Gustavo Rossi, Christiano Tambascia

Departamento de Antropologia da Unicamp

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Em um texto publicado em 1931, intitulado “Pequena História da Fotografia”, Walter Benjamin propõe um ensaio bastante conciso sobre a, então, ainda breve história da fotografia, quando o daguerreótipo tinha quase cem anos. Sua reflexão encontra na passagem entre a origem da fotografia e sua industrialização massiva um ponto de partida para pensar seu lugar na sensibilidade moderna. Benjamin nos chama a atenção para o fato de que, curiosamente, a técnica das primeiras fotografias resgatava a arte da pintura que a precedeu, ainda que inicialmente com a expectativa de superá-la  (muito embora  a pintura “se vingasse” pouco depois, na forma do retoque, sobre a própria fotografia). Entretanto, sugere o autor, ao contrário da pintura, que permanece na história quase que a despeito daquele que foi retratado (extraindo seu valor como testemunho  da maestria do artista), na fotografia, os rostos dos retratados (no limite anônimos) e seus olhares indisciplinados mostravam que “preserva-se algo que não se reduz ao gênio artístico do fotógrafo” (1985 [1931], p. 93).

Benjamin parece apontar para o que escapa mesmo entre as quatro margens da fotografia: uma estranha magia que mesmo a técnica não suprime. E nós - observadores guiados pelo instantâneo manipulado - também resistimos à narrativa e buscamos, segundo Benjamin, um olhar que lembra um acaso “com a qual a realidade chamuscou a imagem”. A fotografia permite ao olhar algo que o próprio fotógrafo, ao fazer a imagem, não intencionava capturar. A fotografia, nesse sentido, é um lugar de relação que permite perceber uma atitude retratada. Há algo da “pequena história” de uma fotografia que parece desdobrá-la, sobretudo quando o olhar é também carregado de memória. Não é irrelevante constatar que os fotógrafos, na grande maioria das vezes, permanecem anônimos nesta mostra. Mas é também dessas limitações historiográficas que as memórias produzidas parecem ressoar de forma mais forte e clara. São - fotografia e fotógrafo/a - trampolins de novas narrativas.

A mostra, “Entre fotos e falas: ‘pequena história’ da antropologia no Brasil”, tomou uma forma que conta muito sobre o percurso de  sua produção. Nela, na sua configuração final que se vê agora, pouco restou das intenções originais, de uma exposição que deveria assumir um formato analógico e concreto (no sentido de sua materialidade). A sua própria concepção, tornada virtual, junto com a 32ª Reunião Brasileira de Antropologia, nos levou a conjugar outras camadas de intervenção que é importante destacar. A mais impactante delas, talvez, a sonora: áudios-comentários que permitem colocar as imagens em movimento. Não da mesma maneira que os filmes, pois, aqui, a imobilidade do instante é fundamental. Eis a razão pela qual chamamos aqui esse recurso de "fotos-faladas". Com sua aura própria um tanto solene e cerimoniosa, atravessadas, no entanto, pelos flagrantes menos formais e mais descontraídos de personagens, eventos e momentos de nossa antropologia, as fotografias do acervo da Associação Brasileira de Antropologia, depositadas no AEL (Arquivo Edgard Leuenroth, da Unicamp) adquirem novas camadas de significação com os depoimentos e as memórias deflagradas pelas imagens.

Da história da fotografia que nos fala Benjamin, a mostra retém a qualidade de álbum, parcial por certo, cujas potencialidades derivam de um esforço curatorial de lidar com um universo bastante fragmentário e lacunar de imagens a partir do qual emerge uma pequena história, não propriamente representativa da abrangência da Associação Brasileira de Antropologia, mas expressiva da antropologia no país. A seleção das fotografias se fez em meio a contingências de muitas ordens. A começar pela própria impossibilidade de acesso físico ao acervo da ABA, no AEL, em razão da pandemia e das medidas de isolamento social, o que obrigou os curadores a restringir o olhar às partes já digitalizadas do acervo. Ademais, como todo acervo documental, o Acervo ABA do AEL é revelador não apenas de histórias que dizem muito sobre os personagens que as habitavam, mas também do seu próprio processo de constituição e preservação.

As imagens testemunham memórias e registros da história da antropologia e de sua Associação reunidas, em grande medida, pelos esforços de Mariza Corrêa, ex-presidente da ABA e principal responsável pela formação dessa coleção, cuja composição, de várias maneiras, trazem as marcas de seus projetos como historiadora da disciplina, bem como a presença de alguns dos seus interlocutores privilegiados. Tais imagens, mais do que simplesmente objetos de exposição, nos pareceu que poderiam ser realçadas e (re)contadas. Foi o que tentamos fazer no processo de seleção das fotografias, instados a lidar não apenas com os dilemas relativos à qualidade técnica das imagens digitalizadas - atribuindo a elas um certo valor estético (e quem poderá dizer que esse é um critério justo?), sempre em tensão constitutiva com o valor histórico do registro -, mas também com uma reflexão quanto às potencialidades e aos limites desse arranjo. Reflexão que não pode desconsiderar as desobediências das imagens quando dispostas como matéria para uma  historiografia.

Os depoimentos, nesse sentido, foram fundamentais. São "falas" que revelam algo que é elicitado pela fotografia, nos conduzindo, assim, para além do instantâneo documentado e dos limites dos enquadramentos "adormecidos no arquivo". Antropólogas e antropólogos gentilmente concordaram em gravar breves depoimentos reagindo às fotografias nas quais aparecem seus professores, seus pais, seus colegas de profissão ou mesmo, personagens importantes para suas próprias reflexões e formações, quando não versões mais jovens de si mesmos. Durante esse processo, nas semanas em que estivemos em contato (por meios também virtuais, como descobrimos ter que nos ajustar atualmente), redescobriram histórias, remexeram tensões e reencontraram colegas; revisitaram, enfim, personagens e momentos das reuniões científicas em meio às quais a antropologia foi ganhando corpo e institucionalidade no Brasil.

Por vezes, incitados pelos curadores e pelas imagens, (re)descobriram sentidos desse passado que antes não existiam, seja na forma de saudade ou da percepção de que essa história se faz a partir da rememoração. Essas pessoas nos contaram, sobretudo, uma história que nos revela algo mais do que o mero registro das Reuniões Brasileiras de Antropologia, desde a sua primeira edição, em 1953, ou das injunções institucionais por meio das quais a antropologia se desenvolveu e foi praticada no país. Em alguns casos, essas mesmas pessoas nos convidaram a “desrespeitar” ainda mais os limites da coleção inicial, os limites do álbum que, assim, foi se transformando e se multiplicando. Por vezes, nos propuseram falar sobre outras fotografias, de seus próprios acervos pessoais, tomando a fotografia que enviamos apenas como um mote inicial, para dali acrescentar informações ou complementar com outras e novas histórias. Em alguns casos, nos disseram que não seria possível falar sobre uma determinada imagem, pois ela tornava demasiadamente presente a lembrança de uma ausência.

“Entre fotos e falas: ‘pequena história’ da antropologia no Brasil” não nutre qualquer ambição totalizante das memórias históricas e visuais da antropologia e da ABA. Pelo contrário, seu resultado final, construído em meio às reflexões disparadas tanto pelo manejo das imagens quanto pelas conversas com as pessoas que se dispuseram a falar sobre a antropologia no Brasil a partir delas, é revelador de como os arquivos não são - e jamais foram - meros repositórios de passados acabados. A rigor, esperamos que a mostra estimule iniciativas que permitam multiplicar esse pequeno álbum de fotografias de nossa história antropológica. Há muitas sombras na história da antropologia no Brasil que ainda podem ser movidas, nuançadas; silêncios que podem ser tornados significativos; lembranças e acervos pessoais das reuniões da ABA que podem ser socializados e, neste sentido, acrescentados aos arquivos já existentes. De modo que as fotografias pela sua natureza lacunar e fragmentária continuariam vertendo-se em uma multiplicidade de sentidos "escovando a contrapelo a própria história". Algo que Benjamin notou no seu ensaio quando escreveu: “na esfera da intenção alegórica, a imagem é fragmento, ruína. Sua beleza simbólica se evapora […], o falso brilho de totalidade se extingue” (1984, p.199-200).

Referências Bibliográficas

BENJAMIN, Walter. “Pequena História da Fotografia”. In: Magia, técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Editora Brasiliense, 1987 [1931].

BENJAMIN, Walter. Origem do drama barroco alemão. São Paulo: Brasiliense, 1984.