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Evocação - Vídeo-descrição

Sons de um maracá e de chocalhos. Uma chama atravessa a tela. Fragmento de uma cruz de cemitério deteriorada pelo tempo. Combustão da chama. A borda de uma saia vermelha se apoia no chão junto a duas garrafas.

A narradora recita: “Infinito, como um círculo, roda que gira sete vezes nas encruzilhadas entre morte e vida e não tem fim”.

Giram velas vermelhas acesas. O som do maracá persiste. Em destaque a palavra Encruzilhadas. Um homem de costas e com boné do MST ergue ambos os braços. Segura uma cruz na mão esquerda e uma berinjela na mão direita. À sua frente, uma linha de policiais armados. Um tiro silencia o maracá e os chocalhos. Close de mão tingida de vermelho. O fogo crepita. Um brigadista bate a terra em luta contra as chamas que carbonizam o chão da mata. Tudo é fogo.

A narradora continua o recital: “Mortes classificadas como naturais que poderiam ser adiadas, mortes identificadas como violentas que deveriam ser evitadas”.

As chamas se alastram pela calçada de uma cidade. Silhuetas de corpos estão desenhados no chão, transeuntes passam por cima. Em um funeral, o caixão é rodeado por indígenas com máscaras de proteção. Uma porta, um muro. No lambe-lambe afixado, uma pessoa tem o rosto coberto por um capuz escrito “Golpe”. Abaixo, um chamado à desobediência civil. Sobreposto, o desenho de um corpo sentado e retraído sobre seus joelhos. Uma pessoa diz com voz compassada: “a primeira pauta das travestis brasileiras é sobreviver”. Menino negro manipula um álbum de fotografias. Uma mulher fala com voz compungida: “e aí eu fiquei sem chão, né, porque tavam matando”. Surgem uma parede de tijolos, a fotografia de uma criança, mulheres. Cartazes com os escritos “saudades”. Documentos (RG) e fotografias de jovens negros aparecem enquanto uma voz feminina diz “meu filho era tudo que hoje em dia eu não tenho mais”. A mãe está de perfil, negra de cabelos presos em coque. Segue falando: “meu filho era vida, era amor”. Mãos mexem no celular e passam pelos retratos de um jovem sorrindo. A imagem gira de ponta a cabeça. Surgem outras imagens e bilhetes afetivos presos por um clipe.

Voz da narradora: “Mortes morridas e mortes matadas, vidas interrompidas pela intolerância, atingidas pela indiferença, ameaçadas pela ignorância”.

Uma mão segura fotografia de um grupo de jovens. Uma moto passa na rua. Outra fotografia de grupo de jovens na igreja. Mão negra segura uma vela na frente do peito, que estampa o rosto de cinco jovens. Todos negros.

A narradora segue: “Morrer que transforma a própria morte ao mostrar que a vida não tem um só fim”.

Efeito furta cor sob os degraus de uma escadaria ornados com girassóis. A voz de Marielle Franco ecoa: “Não serei interrompida!”.

Fundo preto, intérprete veste camiseta branca e repete em libras: "Morrer que transforma a própria morte ao mostrar que a vida não tem um só fim".

Sobrevoo na floresta carbonizada. Homem indígena de costas. O som do maracá se junta ao som de labaredas. Fogo alto. Próximo ao incêndio, uma grande maloca de palha está ameaçada.

A narradora recita: “Viver que se manifesta nos encantamentos de honra aos mortos e faz do nascer e morrer lutas, parte de caminhos que se cruzam em si”.

A palavra Encantamentos aparece em destaque sobre o Museu Nacional em chamas. A palavra Lutas aparece em destaque sobre uma manifestação de rua com dezenas de pessoas que seguram uma longa faixa do arco-íris. Mulheres indígenas e negras surgem reunidas, abraçadas e de mãos dadas. Volta o som do maracá e dos chocalhos. Homens indígenas protestam e seguram caixões de papelão. Um muro de rua coberto por intervenções de graffiti com os retratos de Zumbi dos Palmares e Marielle Franco e de inscrições: “Não deixem privatizarem seu corpo público”, “Vende-se carne negra. Tel: 190”, “Quem amola a faca do menor?’, “Lute pelos seus sonhos”, “Marielle Presente”. Mulher usa óculos de sol e toca tambor com duas baquetas em meio a uma marcha de mulheres negras. Mulher negra usa máscara e face shield segurando um cartaz com os dizeres “Vidas Negras Importam”. Atrás dela uma fileira de policiais militares. Três pessoas seguram uma grande faixa preta com os inscritos em branco “O AI-5 começa na favela”. Atrás deles mais uma fileira de policiais. Em preto e branco, surge um cartaz de papelão levantado por duas mãos com os inscritos “Parem de nos matar”.

A voz da narradora entra: “Inversão que desafia a insistência de atingir alguns corpos e interromper certas existências”.

Destaque da palavra Corpos sobre a imagem de indígenas usando máscaras de proteção e segurando um caixão. Em uma estrada com chão de terra, um grupo de militantes vestidos de camisetas vermelhas com o símbolo do MST fica frente a frente com uma fileira de policiais usando capacetes e escudos. Uma voz exclama: “Pátria Livre!”. O grupo responde: “Venceremos!”. Um grupo de jovens negros vestidos de preto com máscaras de proteção vermelhas e pretas seguram placas que formam a frase “Favela vive” e o cartaz “Querem minha cor, mas não querem minha luta”. O som de bombas se junta à imagem de dezenas de militantes do MST correndo numa estrada. Uma voz de mulher diz: “Cenário de guerra aqui em Campo do Meio”. O helicóptero da polícia sobrevoa a manifestação. Vozes gritam “Justiça, Justiça”. Em meio a uma manifestação, jovem negro usa máscara de proteção e segura pequeno cartaz escrito “Justiça por Miguel”. Manifestantes seguram flores e gritam “Não foi acidente!”. Em outra manifestação, mulheres seguram uma grande faixa com os inscritos “Marielle Vive” e em letras menores “Militarização: não em nosso nome”. Outros cartazes portam os inscritos “Seu sangue no chão não ficará impune!” e “Marielle Presente!”. Uma mulher indígena é iluminada pela luz  do sol. Caixotes de feira empilhados repousam ao pé de uma árvore.

A voz da narradora declama: “Continuidade que por meio de coisas reivindica vidas e produz afetos ao preencher tempo e espaço com a presença central dos mortos”.

Em destaque a palavra Coisas. Duas mulheres em perna de pau sorriem, enquanto uma segura o rosto da outra. A palavra Afetos se destaca. Um desenho do Museu Nacional. Em preto e branco, quatro mulheres de costas seguem abraçadas, em meio a uma roda de pessoas. O som de vidro quebrando irrompe. Moldura vazia de um porta-retrato caída em meio na lama. Pés descalços andam sobre a lama e recebem a palavra Ruínas em destaque sobre eles.

A narradora prossegue: “Ruínas que se erguem na dimensão entre matéria e destruição e se expandem no limite do indagar”.

Um homem, de costas, caminha em meio a um espaço destruído pela lama, com terra revirada, cerca e casa desabada. Destroços de pedras, tijolos e pedaços de madeiras se misturam a uma boneca de plástico quebrada. Um menino negro brinca sentado em meio às ruínas de uma casa. O som de “bip”, como nas UTIs, ritma a troca de imagens. Duas mulheres encostam suas cabeças uma na outra, enquanto seguram juntas uma vela vermelha. Uma mulher com o rosto coberto de tule vermelho se inclina lateralmente com os braços curvados sobre a cabeça, em uma posição de dança. Um homem idoso, visto de costas e sob um chapéu de abas largas, curva-se em oração em um muro de cemitério, carregando em uma de suas mãos um terço. Em imagem preto e branca, um homem indígena nos encara de frente, com a língua de fora e o rosto pintado. O ritmo dos bips se acelera e o movimento das imagens o acompanha. Parcialmente uma mulher curvada sobre um túmulo, com flores rosas e seu braço em primeiro plano. A radiografia de tórax com um coração vermelho pintado sobre ela vai e volta, se misturando e sobrepondo a diferentes imagens: a de uma mulher negra de olhos fechados abraçando outra pessoa com muita emoção; a de um desenho em preto e branco de um homem que tem no lugar do coração o símbolo do movimento de familiares pela diversidade sexual e de gênero; outro desenho de uma mão que se abre, lançando ao ar um coração formado parcialmente por muitos rostos.

Um longo bip surge e a narradora retorna: “O que morre quando as pessoas morrem?”.

Um rosto sem vida de boca aberta está dentro de um plástico sobre o qual está colada a etiqueta de identificação: lote: covid-19. Nome: 345656. Idade: 21. Motivo: Enfermeira. Onde pegou: Linha de frente ao combate do coronavírus. Embaixo das informações, um código de barras.

Narradora pergunta: “O que existe e resiste quando os mortos são lembrados?”.

Outra imagem da mesma série artística surge: mulher, nome Maria dos Santos, 46 anos, motivo: Médica. Onde pegou: Linha de frente ao combate do coronavírus, código de barras.

Novamente a narradora questiona: “Qual é o lugar da morte na vida dos que sobrevivem?"

O canto indígena acompanha a imagem do sol nascendo em meio a uma paisagem de árvores e pássaros. O canto segue. Surge um muro grafitado em azul com a pintura de uma mulher com uma pomba branca em cada mão. Seguindo a melodia, as imagens se misturam umas nas outras, em uma sequência suave. A fotografia em preto e branco de um menino negro olhando a paisagem através da janela de sua casa dá lugar à de um homem velho e outro mais jovem em um barco a remo, no rio. Funde-se à de uma mulher velha que encara a câmera, de homens com um violão; de uma jovem indígena com rosto e corpo pintados; de uma folia de reis caminhando pela estrada. Por fim, um menino olha amorosamente para o passarinho pousado em seu dedo. A imagem se desvanece até que a tela fica toda branca.

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