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Sala 7 - In Memoriam

Nesta sala fazemos uma breve homenagem às mães e demais familiares que apenas deixaram a luta quando também foram vítimas de assassinato, como Edmeia, ou quando seus corpos não aguentaram mais, como Vera, Julia, Dulcinéria, Joselita, Vera, Marilene, Euristeia, Janaína, Darlana e Teresinha. São muitos anos acumulando camadas de sofrimento, dor e cansaço que se transformam em problemas de saúde incontornáveis. Mesmo que a violência de Estado as tenha colocado nessa posição de vulnerabilidade, a luta por seus filhos e familiares sempre foi o que permitiu contornar os limites do corpo. Esta sala passa a compor, então, uma plataforma coletiva de memória, na qual todas essas mulheres poderão ser lembradas e seguir nos inspirando.

Vera Lúcia dos Santos: Presente!
Júlia Procópio: Presente!
Dulcinéria Silva: Presente!
Joselita de Souza: Presente!
Vera Flores: Presente!
Marilene Lima: Presente!
Edmeia da Silva: Presente!
Euristeia Azevedo: Presente!
Janaína Soares : Presente!
Darlana Ribeiro Godói: Presente!
Teresinha Santos: Presente!

  1. Edméia da Silva Euzébio - Mãe de Acari. Arquivo: Rede contra Violência

Edméia da Silva Euzébio, 47 anos.
Edméia foi assassinada em julho de 1993, por uma homem num carro após sair do presídio Hélio Gomes, quando teria obtido informações sobre o desaparecimento de seu filho Luiz Henrique, de 16 anos.

Edméia era uma das mães da Chacina de Acari, ocorrida em 1990. Nessa ocasião, onze jovens foram passar um fim de semana num sítio em Magé, Baixada Fluminense, quando polciais invadiram o local e os levaram para lugares até hoje desconhecidos. Edméia, era moradora da favela de Acari e líder comunitária. Moradores da favela não aceitaram o desaparecimento do grupo, Edméia e outras mães se tornaram tanto detetives do caso, quanto organizaram mutirões em busca dos filhos. Passaram a frequentar lugares de desova de corpos, cemitérios clandestinos, Edméia visitava ex-policiais em busca de pistas.

Foi dessa maneira que ela e outras mães reuniram nomes de policiais que participavam de grupos de extermínio e suas práticas. As mães e Edméia acionaram órgãos internacionais de Direitos Humanos, como a Anistia Internacional e a ONU, assim como, compartilhavam suas investigações. Edméia, passou a receber ameaças. Com ela, no momento em que foi assassinada, estava Sheila Conceição que saía do presídio em direção ao metrô e acabou morta. O assassinato de Edméia teve reviravolta com o depoimento de uma nova testemunha e espera o julgamento que será agora por júri popular.

2. Dulcineria Silva - Rede contra Violência. Foto: Juliana Farias.

Dulcinéria Pereira da Silva (10-05-1963 / 18-03-2007).

Dulcinéria perdeu o marido, grávida de seis meses e conta que passou muitas dificuldades para criar os cinco filhos. Em 2004, chegaria um neto: a namorada de seu filho Júlio César estava grávida. Porém, ele não chegou a conhecer o filho. Foi assassinado aos 16 anos por policiais, no que ficou conhecido como Chacina do Caju, realizada por policiais militares, que mataram mais quatro jovens.

Dulcinéria, também conhecida por Lúcia, juntou-se as outras mães em busca de justiça e passou a atuar junto a Rede Contra a Violência, além de ser uma liderança comunitária na favela do Caju, região portuária do Rio de Janeiro. Com a saúde abalada pela falta de resposta das autoridades, veio a falecer em 2007, aos 44 anos.

3. Vera Lúcia Flores - Mães de Acari. Arquivo: Documentário Luto como Mãe

Vera Lúcia Flores, 59 anos.

Vera Flores faleceu na madrugada do dia 10 de agosto de 2008, em casa, depois de sofrer uma crise de hipertensão. Vera, além da pressão alta, possuía doença pulmonar e diabetes grave, tendo que amputar dedos dos pés. No começo de 2008, após a morte de um neto, ela teve dois AVCs. Trabalhou como doméstica e era líder comunitária quando perdeu sua filha Cristiane Sousa Leite, de 16 anos, desaparecida em Magé, Rio de Janeiro, junto com outros dez jovens, no crime conhecido como a Chacina de Acari. Vera, Marilene, Joana, Edméia, Ana Maria e Tereza tornaram-se então as Mães de Acari, pioneiras por denunciar a violência policial perpetrada contra pobres e negros no período pós-ditadura militar.

Assim como outras mães, realizou uma peregrinação sem fim em busca de informações: percorreu cemitérios clandestinos, escritórios, órgãos estatais, delegacias, presídios, conversou com juízes, delegados, secretários de segurança, autoridades policiais. Nas aparições públicas e entrevistas, ela trazia sempre uma foto da filha e recortes de jornais. Também correu mundo para participar de eventos e manifestações, cobrar justiça e a punição dos responsáveis: viajou pela Europa por duas vezes a convite da Anistia Internacional, das Mães da Praça de Maio e da ex-primeira dama francesa Danielle Miterrand. Vera deixou quatro filhos e quatro netos.

4. Euristeia Azevedo - Mães do Rio: Arquivo Rede contra Violência

Euristéia Azevedo, 66 anos.

Fundadora do grupo Mães do Rio, Euristéia faleceu em 2009. Seu filho Willian, 24 anos, um sargento do exército, foi assassinado num evento conhecido como Chacina do Maracanã, em 1998, junto da namorada e mais duas pessoas que seguiam num carro, na volta de um show. O carro levou 47 tiros e sequer houve perícia. Quatro policiais militares, um policial civil, um soldado da Marinha e um agente penitenciário foram acusados pelo crime, mas acabaram absolvidos em julgamento ocorrido três meses após o infarto de Euristéia.

5. Terezinha Santos - Rede contra Violência. Arquivo da família.

Terezinha Maria Oliveira dos Santos, 72 anos.

Terezinha faleceu em 01.04.2011, às 07:23h, resultado de choque cardiogênico e fibrilação atrial. Ela era mãe de Josenildo dos Santos, 42 anos, morto pela polícia na Chacina da Coroa, em Santa Teresa, no Rio de Janeiro, em abril de 2009. Além de Josenildo, outras 5 pessoas foram mortas na ocasião. Todas as mortes foram registradas pelos policiais do 1º BPM como “autos de resistência” e eles foram acusados de serem traficantes, inclusive Josenildo, o “Téo", que era lanterneiro e eletricista, muito conhecido e querido em todo o morro. Terezinha quando faleceu era viúva e deixou 9 filhos, 17 netos e 3 bisnetos.

6. Marilene Lima de Souza - Mães de Acari. Arquivo: Rede contra Violência

Marilene Lima de Souza, 61 anos.

Marilene morreu em 12 de outubro de 2012, vítima de um tumor no cérebro. Marilene foi uma das mães de Acari, tornando-se defensora de direitos humanos depois que sua filha Rosana desapareceu em um sítio, em Magé, na Baixada Fluminense, com mais dez amigos, na Chacina de Acari. Marilene foi uma das mães mais ativas e, como a maior parte destas, recebeu ameaças. Junto à Rede Contra a Violência, coordenou um projeto de assistência psicológica a familiares de vítimas da violência do Estado. Nos últimos anos, cuidava de uma senhora nos fins de semana. Há cinco anos, Marilene falou ao jornal O Globo: “Dediquei minha vida à busca do corpo da minha filha e hoje não tenho nada, nem emprego nem saúde. Vivo à base de remédios para depressão. Eu luto muito, mas os anos passam e cada dia fica mais difícil saber o que realmente aconteceu com a minha filha. As Mães de Acari não tiveram o direito de enterrar seus filhos. Essa é a maior dor”. O inquérito que investigava a Chacina prescreveu em 2010. Inúmeras informações levam a policiais civis e militares, mas ninguém foi indiciado. Antes da perda da filha, Marilene trabalhou em uma fábrica de bolachas Piraquê e numa loja de pães de queijo. Foi casada duas vezes, do segundo casamento, deixou quatro filhos e cinco netos.

7. Joselita de Souza - Caso de Costa Barros. Arquivo: Rede Nacional de Mães e Familiares de vítimas do terrorismo do Estado

Joselita de Sousa, 44 anos.

“Mãe morreu de tristeza”, lia-se nas chamadas para as matérias de jornais e revistas que noticiaram a morte de Joselita de Sousa, em julho de 2016, oito meses após a perda do filho caçula, assassinado em novembro de 2015, no que ficou conhecido como o “caso de Costa Barros”. Um caso que tornou-se famoso pela enxurrada de balas, 111 tiros contra um carro onde seguiam cinco jovens negros que se dirigiam ao bairro vizinho de Madureira, na zona norte do Rio de Janeiro, para comemorar o primeiro emprego de um deles. Mas como 111 tiros por engano? Joselita desenvolveu um quadro de depressão grave, desde a morte de seu filho e os familiares contam que, após receber a notícia de que o STJ havia concedido habeas corpus aos policiais acusados, seu estado de saúde havia piorado. Ela teve uma parada cardíaca e foi diagnosticada com anemia e pneumonia, falecendo aos 44 anos, em 2016. Wilkerson, sobrevivente da chacina (seguia atrás do carro numa moto) jamais se recuperou do trauma de testemunhar as mortes do irmão e dos amigos e também veio a falecer, vítima de um aneurisma cerebral aos 16 anos; sua mãe, Márcia Ferreira, perdera então mais um filho num curto espaço de tempo.

O caso segue em andamento na justiça; um dos policiais acusados foi absolvido pelo júri popular, num julgamento de mais de 20 horas, ocorrido em 2019, mas a Defensoria Pública e o MP já recorreram da decisão; um ainda será julgado e dois foram condenados.

8. Julia Procópio - Rede contra Violência. Arquivo: Rede contra  Violência

Júlia Procópio

Liderança comunitária no bairro de Acari, zona norte do Rio de Janeiro, “dona” Júlia, como era conhecida, tornou-se defensora de direitos humanos ao apoiar Penha, mãe do pequeno Maicon, morto pela polícia quando brincava no beco onde morava, aos dois anos de idade, em 1996. Na ocasião, acabou aproximando-se da Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência. Recebeu em 2016 a Homenagem Maria do Espírito Santo Silva, realizada pela ONG Justiça Global, em reconhecimento a sua trajetória. Faleceu em 08 agosto de 2017 e é sempre lembrada com carinho por mães e apoiadores da Rede.

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9. Vera Lúcia dos Santos - Mães de Maio. Arquivo: Movimento Mães de Maio

Vera Lúcia Gonzaga (1960-2018).

Vera tinha 58 anos, era uma das fundadoras do movimento Mães de Maio, faleceu no início de maio de 2018. Verinha, como chamavam as companheiras de luta, foi encontrada morta em casa, na periferia de Santos, litoral paulista. Na cama onde estava, havia documentos pessoais e fotos da filha Ana Paula e do genro, Eddie Joey, assassinados durante os chamados Crimes de Maio. Nessa ocasião, Ana Paula estava grávida de 9 meses de Bianca quando policiais dispararam cinco tiros, um deles na barriga. Ao todo, mais de 500 pessoas acabaram assassinadas pela polícia e por grupos de extermínio como revide à facção Primeiro Comando da Capital (PCC). Diante das investidas de Vera para descobrir e denunciar fatos relacionados aos Crimes de Maio, policiais militares forjaram uma batida em sua casa colocando drogas no tanque de lavar roupas, Vera foi acusada por tráfico e acabou presa por três anos e dois meses. Ela era manicure e cabeleireira, após a perda dos entes, se mudou do Centro para uma casa compartilhada na periferia de Santos, dedicando boa parte de seu tempo à militância. Vera deixou 3 filhos: Lucimara, Luciano e Paulo.

10. Janaína Soares - Mães de Manguinhos. Arquivo: Mães de Manguinhos.

Janaína Soares (06-10-1983/ 07-11-2018)

Tendo a vida já impactada por uma morte violenta, o assassinato do marido no trabalho como segurança do metrô, Janaína perdeu também um filho, de apenas 13 anos, alvejado por policiais militares enquanto jogava bola num campinho de futebol em Manguinhos, zona norte da cidade do Rio de Janeiro, em 2015. Em 2018, ela recebeu por zap um vídeo do jovem morto em Manguinhos, após mais uma ação violenta da polícia e se desesperou. Logo depois, veio a falecer, segundo o laudo médico, por “causa indeterminada”, segundo a família, de tristeza. Pouco antes de morrer, Janaína havia avisado a mãe que havia um dinheiro guardado “para pagar meu enterro”. Janaína deixa um filho, o caçula. As Mães de Manguinhos, muito abaladas com sua perda precoce, seguem na luta por justiça para Cristian e por outras vítimas da violência estatal.

11. Darlana Ribeiro Godoi - Associação de Familiares de Internos(as) do Sistema Penitenciário do Distrito Federal. Arquivo da família.

Darlana Ribeiro Godoi

Foi uma das coordenadoras da Associação de Familiares de Internos (as) do Sistema Prisional do Distrito Federal (Aviso/DF), faleceu de leucemia em 22 de setembro de 2019. Lana, como gostava de ser chamada, descobriu há 5 anos que tinha leucemia, lutando até o final contra o câncer e pelos direitos dos internos.


Dedicamos esta exposição às vítimas, familiares e a Marielle Franco, que lutou incansavelmente por justiça.

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