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Transcrição: Tempo: a estrutura é a mesma, o que muda é a carne

Olivia: Uma das perguntas que a gente tinha para fazer era: o que você percebe que mudou de lá para cá, né, da década de 1970, 80, quando ela tira essas fotos, para esse momento da causa indígena, da luta indígena hoje?


Kuawa: Sim. Primeiramente, o tempo é inventado. Ta? Inventaram o tempo, e o tempo ele... inventaram o tempo a partir de uma relação do capitalismo. Porque esse tempo é algo criado a partir de uma sociedade Ocidental. Isso aí… eu tenho bem claro isso dentro de mim, não sei a opinião dos outros, então, como a pergunta é para mim, eu vou responder a partir da minha percepção. Ta? Então, a partir dos anos setenta, eu nasci depois dos anos setenta, tá? Então eu não sei dos anos setenta, eu sei a partir do tempo que eu nasci. É, nos anos setenta na Amazônia, o que que era? Bem, eu fui vacinada... eu nasci 1976. Eu perdi duas irmãs de doença. Porque não tinha vacina. E… por que meu pai não tinha acesso a essas vacinas, e o governo federal não dava acesso às vacinas por causa da questão indígena. Então, a minha avó, e os indígenas na Amazônia, como é que viviam? Em condições sub-humanas. O indígena, ele se transformava, e aí eu posso falar da questão da Amazônia ali do médio Purus, e aí a gente pode estender em toda a Amazônia. O indígena ele se transforma em seringueiro, em trabalhador, explorado pelos grandes patrões, que eram os sulistas que subiram para lá, que vem de São Paulo, Rio de Janeiro, e aí viam uns paranaense também, porque depois vem uns paranaense mais depois dos anos setenta a oitenta, pra Amazônia. Então eles são transformados. E fora os missionários, tá? Tem os missionários também. Então eles são transformados em trabalhadores explorados pela questão da... inicialmente da primeira guerra mundial e da segunda guerra mundial pelo látex, né, pela borracha. E depois pela questão do… do extrativismo. Então, o meu pai era seringueiro. Meu pai era seringueiro. Meu pai era um índio seringueiro. Minha avó era uma índia seringueira. Então eu… eu perdi duas irmãs porque não tinha vacina. E eu quase morri, porque eu também não tinha vacina. Eu nasci prematura dentro do seringal. Então, naquela época, a gente, os indígenas não tinha nenhum tipo de direito, a gente tinha um tal de, é… acho que já… sessenta e pouco depois que nasceu a FUNAI, tinha o SPI, que na verdade a gente sabe, por que o relatório Figueiredo diz exatamente o quê que era. Eu li uma parte do relatório Figueiredo, depois não tive mais coragem de ler, porque tu vomita de nojo do quê que é o relatório Figueiredo. E… esse termo indigenista, eu vou só dar um toque pra alguns antropólogos, que eu sei que os antropólogos vão me ouvir, então vou só dar um toque pra alguns antropólogos. É, pra num deixar de ser Kuawa, né, porque Kuawa quer dizer “fruta venenosa”. É… indigenismo, a origem da palavra, gente, tomem cuidado com esse origem, “ah, eu sou antropólogo indigenista”, cuidado com essa palavra, essa palavra ela vem lá desses relatórios, vem lá desses lugares, então preste atenção. Você pode dizer: “olha, eu sou antropólogo que trabalha com os povos indígenas”. Indigenismo é uma palavra muito pesada, então tomem cuidado. Então, quando a gente… nesses anos setenta, os indígenas, eles sofriam muito. Claro que a gente nunca deixou de sofrer perseguições, só que cada tempo com o seu mal. Então, nos anos setenta havia toda uma relação de perseguição contra os povos indígenas, e os indígenas eram transformados em seringueiros, serradores, carvoeiros, então o que… qual a mudança que aconteceu? E havia toda uma invasão dentro da Amazônia. E as terras ainda não eram demarcadas. Começa o início da demarcação das terras indígenas, havia luta pela terra. E havia as grandes expulsões dos nossos territórios. E aí a gente pode fazer um link com o marco temporal agora, Olivia, porque naquela época já acontecia o genocídio, já acontecia as expulsões dos indígenas das suas terras, e aí chega 1988, a gente já tá fora das terras, e aí vem esses, essas pessoas né… que são chancelados pelo… pelo capitalismo do agronegócio, né, do agronegócio, dos fazendeiros, dizendo que: “olha, só vamos reconhecer os indígenas que tiverem aqui antes de 88, 5 de outubro de 1988. Como é que a gente pode ser reconhecido estando nas nossas terras, se nós já fomos expulsos desde os anos setenta, sessenta das nossas terras? Quer dizer, é uma falácia isso, então, nos anos setenta… como é que eu percebo os anos setenta pra mudança dos anos 2000, muitas mudanças. Com a constituição de 1988, que é de um modo, uma esperança, é uma esperança porque nós somos reconhecidos por uma lei. Essa lei diz que nós, que nós existimos. A partir de uma matriz ocidental. Mas nós já existíamos a partir da nossa matriz que é muito maior, porque nossa matriz ancestral. Não quer dizer que nós não existiamos antes. Só que como a gente é obrigado, desde 1500, a viver com esse povo que invadiu nosso território, pra nós é uma vitória a constituição federal. Mas eu não nego a minha matriz ancestral. A nossa existência é anterior a constituição de 1988. Então, como é que eu percebo? Muitas mudanças, mas, então, a diferença... não existe diferença, mas cada tempo um demônio né? Cada tempo os demônios... e esses demônios, eles são filhos dos demônios anteriores. É aquilo que eu costumo dizer, né, é… o que muda não é o mal, o que muda não é… A estrutura é a mesma. E o que muda é a carne que abastece essa estrutura.