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Transcrição: Os quatro campos da Antropologia e o acervo do Museu Nacional, por Luiz Fernando Dias Duarte

Transcrição

CR: A terceira pergunta, eu acho que você já respondeu um pouco. Tinha a ver com essa passagem da Antropologia Física para a Antropologia Sociocultural...você já mencionou, mas se a gente puder agora aprofundar isso em termos de um certo inventário do acervo... esses quatro campos da antropologia... eu pessoalmente inclusive fui treinada nesses quatro campos, né? Então são quatro... é uma ideia de ser humano que é diferente, né? E eu acho que o acervo... ele reflete um pouco ainda essa amplitude da antropologia.

LFD: É, exato. Este é um ponto extremamente interessante...que é um desafio que continua existindo para todos nós. Porque esses quatro campos se constituíram originalmente nos Estados Unidos, na antropologia estadunidense...consistia em quatro facetas que se considerava como complementares...elas são complementares, de certa maneira continuam sendo, mas elas desenvolveram estratégias cognitivas que se aplicam a materiais muito diferentes. Então não é nada fácil você ser hoje em dia treinado e competente em sequer dois desses quatro campos, quanto mais nos quatro. E que são exatamente esses que há pouco eu mencionei. Quer dizer, a Arqueologia... que é hoje uma ciência completamente autônoma...que se nutre evidentemente do diálogo interdisciplinar, mas tem as suas próprias regras...Tem inclusive o seu próprio curso de pós graduação no Museu etc.

A Linguística, que é uma ciência também completamente específica, que também se nutre do diálogo interdisciplinar, né? Os linguistas, e as linguistas, do Museu Nacional se dividem entre a faculdade de Letras da UFRJ e o Museu Nacional, muitos deles... Porque justamente a linguística é cultivada lá. A linguística indígena, no sentido mais estrito, é cultivada no Museu Nacional... o conhecimento das línguas indígenas pela ciência linguística, né?

A Antropologia Física, que se transformou numa Antropologia biológica, hoje em dia trabalha muito mais no nível da genética, no nível da saúde populacional, do que na craniometria e a mensuração dos corpos com que ela trabalhava no século XIX, né? Ela não é muito numerosa no Museu mas tinham coleções importantíssimas e que certamente serão compostas paulatinamente.

E finalmente esse núcleo da Antropologia Social e Etnologia, que são indiscerníveis, inseparáveis hoje em dia, né? Sobretudo na antropologia do Brasil... porque a Antropologia do Brasil foi muito inovadora em trazer para dentro da Antropologia Social e Cultural, áreas que em outros países estão subordinadas à Sociologia - na França, por exemplo. Então entre nós o que se entende por Antropologia Social...você sabe disso tanto quanto eu...é uma estratégia de conhecimento, é um método de conhecimento, que se aplica tanto às sociedades de pequena escala, às sociedades indígenas, etc., quanto às culturas de civilização e às nossas sociedades modernas, nos seus mais variados aspectos – desde quilombolas, a classe operária urbana, a elites, a religião, a saúde, a Direito, política, enfim, é um saber bastante abrangente. Mas sempre voltado justamente para essas dimensões que nós poderíamos chamar de simbólicas, culturais, conceptuais da vida humana. Enquanto que a Linguística se volta especificamente para a linguagem, e as suas diferentes propriedades; a Arqueologia para as diferentes formas pelas quais as culturas humanas deixaram rastros, deixaram vestígios, que podem ser recuperados, analisados, etc. (isso tanto pré-historicamente como historicamente já a esta altura, pois nossa história já é profunda...a história da cultura humana); e finalmente a Antropologia Física neste aspecto de uma relação muito forte com a biomedicina e com a genética particularmente. Então esses quatro campos continuam existindo no Museu, dentro do mesmo departamento, mas em cursos de pós-graduação separados, diferentes, né? Existe um curso de pós-graduação em Linguística, um curso de pós-graduação em Arqueologia e um outro em Antropologia Social, incluindo a Etnologia. Mas professores da Linguística dão aula no curso de Antropologia, professores da Antropologia no curso de Arqueologia...e assim, essa interação entre os quatro campos continua existindo, embora com uma identidade cada vez mais marcada de cada um dos seus diferentes polos. O que é bom, é uma autonomia com sintonia, com simbiose, com articulação.

Ah, e desculpe Clarice, você tinha mencionado a questão das coleções, né? Esse é um ponto que eu posso ainda explicar um pouco. As coleções de Arqueologia são muito preciosas. A Arqueologia trabalha com materiais, trabalha com materiais sólidos, com materiais concretos. De modo que é muito coerente que a atividade arqueológica, de pesquisa arqueológica, se transforme em exposições, né? Porque você tem ali um material que vai ser trabalhado, limpo, organizado, restaurado, etc., mas que em principio está mais facilmente disponível para exposição do que as ideias, as crenças, as concepções políticas, que são abstrações neste sentido, se comparadas com um machado de pedra, por exemplo. A linguística também é mais difícil de ser apresentar numa exposição. Eu já vi no exterior exposições de linguística, com gravações, ligadas a etnias... você ouve como era a língua x, a língua y, os tipos de línguas x e y, né? As diferentes maneiras pelas quais as línguas se organizam internamente, como é que elas fazem relacionar o aparelho fonador com um determinado projeto de língua...

E a Etnologia, a área das sociedades indígenas dentro da antropologia. Essa também... classicamente no Museu, tinha uma coleção preciosíssima, você pode imaginar... coleções que representavam os estados históricos das etnias brasileiras desde a primeira metade do século XIX, de sociedades que já desapareceram, de cultos, rituais que não existem mais, né? Um trabalho muito interessante que se fazia nos últimos tempos, e que voltará a se fazer, certamente, era o de diálogo com... aliás, está se fazendo, certamente...era o diálogo do Museu com os representantes das sociedades indígenas, das etnias envolvidas. Então vinham um grupo de Bororo, por exemplo, para examinar a coleção Bororo. E com isso ao mesmo tempo eles viam coisas que eles sabiam que tinha existido, mas não tinham nunca visto etc, eles se nutriam da sua própria cultura, e eles nos nutriam da informação que eles tinham sobre esses objetos. Então esse processo estava em pleno jogo, em pleno curso... eu citei Bororo, mas o exemplo mais importante era dos Carajá... isso se fez particularmente com a cultura dos Carajá, mas com vários outros também, incipientemente.

E agora para a reconstituição das coleções etnológicas, já está se partindo desse ponto de vista. Quer dizer, pede-se aos indígenas que eles participem desse processo, de modo que eles não se sintam em relação a um museu estranho a eles, mas um museu no qual a sua cultura está presente como um testemunho que eles querem apresentar. Essa é uma nova faceta dessa área específica das exposições etnológicas.

Mas voltando então ao ponto principal, nós tínhamos fundamentalmente, na área de ciências humanas, exposições de Arqueologia e de Etnologia. Com uma peculiaridade que era o fato das nossas coleções históricas do século XIX – então nós tínhamos coleções Egípcias, tínhamos coleções Greco-romanas, tínhamos coleções Andinas, que tinham sido resultado de doações, aquisições.... um pouco aleatórias, vamos dizer assim... nunca fizeram parte de um projeto institucional do Museu. Chegamos a ter egiptólogos muito importantes como Alberto Childe, no começo do século XX, que classificou com toda a nossa coleção, etc. Temos agora um egiptólogo muito importante que está sempre indo ao Egito fazer escavações, o Antônio Brancaglion. Mas eram atividades específicas... havia elementos, que pertenciam às coleções etnológicas, que nunca tinham sido expostos, porque não faziam muito sistema. Por exemplo uma armadura completa de samurai, do período clássico japonês, né? Até um dos nossos museólogos tinha feito uma dissertação de mestrado sobre essa armadura preciosíssima, da qual só restaram 3 ou 4 elementos metálicos... enfim, então nós tínhamos essa característica no Museu Nacional, de além da nossa etnologia, vamos dizer assim, da etnologia das culturas, sociedades, etnias do território brasileiro, nos tínhamos um material muito rico sobre outras culturas. As culturas do Pacífico, como eu mencionei, esse manto havaiano...mas tínhamos outras peças extremamente importantes, extremamente raras, porque eram todas muito antigas. Africanas! Tínhamos aberto recentemente uma sala com material africano. Nós tínhamos uma peça riquíssima, que era um trono do rei do Daomé, que tinha sido doado a D João VI. Essa sala africana, que tinha sido montada há relativamente pouco tempo, acho que uns 3 anos no máximo, tinha sido uma novidade das coleções do Museu e era muito preciosa.

Isso é uma visão mais geral da complexidade, e dessa área das ciências humanas do Museu, envolvendo as coleções, as exposições.

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