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Transcrição: Um fotógrafo na cidade: a fotografia e a arquitetura na vida de Cristiano Mascaro, por Cristiano Mascaro

Transcrição

CR: A pergunta mesmo é onde a sua identidade como arquiteto entra no seu trabalho como fotógrafo?

CM: Então quando eu saí da faculdade, eu evidentemente tive um interesse mais específico em relação a arquitetura. Mas eu não fotografava arquitetura exatamente. Eu estava sonhando era em ser repórter fotográfico. Eu estava envolvido com a ideia de trabalhar em alguma revista ou algum jornal porque justamente essa geração de fotógrafos que me inspiraram viviam como repórter fotográficos, como jornalistas. Eu então arrumei um emprego na revista Veja, que estava sendo lançada justamente em 68, quando eu saí da faculdade. Então eu saí da carteira e entrei na redação. Isso foi uma experiência muito importante para mim durante o primeiro ano, que eu trabalhei na Veja. Depois eu arrumei uma bolsa de estudos, fiquei dois anos fora do Brasil. E quando voltei, retornei mais um ano e meio no jornalismo. Mas para mim foi muito importante porque eu tive uma formação acadêmica, numa escola de arquitetura - que fala de história da arte, que eu tive como disciplina, e várias outras – ligada um pouco assim à essa necessidade de criar. Mas na faculdade a gente não se importava se estava fazendo sol ou chuva, a gente ficava na prancheta desenhando e tal. Agora na revista...eu tinha que sair, e podia estar chovendo trovoadas e raios...eu tinha que voltar para a redação com a melhor foto. Porque não podia argumentar com o diretor da revista...ah, a luz não estava boa...como hoje posso me dar ao luxo de escolher, numa foto exatamente de arquitetura. Eu posso esperar o sol voltar, escolher a hora do dia, e assim por diante. Lá na revista Veja, não, eu tinha que sair correndo e voltar pra redação com a melhor foto.

Mas daí eu tive a oportunidade de voltar para a universidade. E daí é que entra um pouco da arquitetura nessa historia. Isso foi em 1974, eu fui coordenar, justamente na faculdade onde eu tinha me formado – faculdade de arquitetura e urbanismo – eu fui coordenar um laboratório de recursos audiovisuais. Que tinha que cumprir o papel de fazer com que os alunos de arquitetura vissem a cidade através da fotografia, que é um tipo de observação muito mais criterioso do que aquele, o olhar de quando você está passeando e olhando, observando as coisas. Você pode ser muito atento mas você não tem aquela atitude drástica de apertar o clique, né? e fazer aquela foto...então ela foi uma coisa bem escolhida, e que você considerou significativa, né? Então eu vivi 14 anos cumprindo esse papel. Tive uma biblioteca muito boa, a biblioteca universitária, diante de mim. Onde eu pude correr lá e rever o Cartier-Bresson naquele livro...

É que pra mim foi muito importante continuar estudando, né? Eu estive na universidade, nesses 14 anos que foram de uma vida um pouco mais regrada, com horários que não eram aqueles do jornalismo...ah, você agora vai não sei pra onde, né? Mas aí na faculdade eu aproveitei para fazer o mestrado, eu fiz um doutorado...e todos relacionados com a imagem da cidade.

Bom, passou o tempo, eu saí desse trabalho, e eu resolvi ser um fotógrafo independente...que na verdade é um fotógrafo totalmente dependente do mercado e essa coisa toda. Mas foi uma decisão acertada. Quer dizer, até hoje, desde 88...até hoje eu tenho trabalhado de uma forma...como um fotógrafo independente. E poder escolher principalmente nos últimos anos aquilo que fazer. Foi daí que eu voltei realmente os olhos para arquitetura – ela como monumento. Passei por duas experiências anteriores muito boas – uma que foi esse livro, o Patrimonio Construído, que gerou essas fotos coloridas do Museu. Em paralelo, fiz um trabalho para o programa Monumenta – foi um programa do Ministério da Cultura, junto com o IPHAN, com o apoio financeiro do BID e da Unesco – que era fotografar 28 centros históricos nas cidades brasileiras.

Hoje em dia, por uma série de limitações...que antes eu podia fotografar pessoas...eu ia lá e... – Eu queria fazer seu retrato, eu quero entrar na sua casa para fotografar sua sala de visita. Fotografar sala de visita é demais! Eu acho que tem tudo a ver com o trabalho de vocês. Daria o retrato das pessoas daquele lugar, particularmente daquela casa...fiz muito fotografias assim de interiores, assim num tempo em que a gente batia à porta, dessas casas que eram mais rente à rua...ou num prédio que tinha lá um zelador, sem grade, nada...isso até a década de 80/90 mais ou menos. Então eu pude me divertir – no bom sentido, responsável – vendo tudo isso. Aproveitava que eu entrei na casa das pessoas e falava para uma das pessoas que estava lá – eu queria fazer um retrato seu. E ela gostava, ficava envaidecida. Isso não acontece mais. As pessoas são absolutamente refratárias, não gostam de ser fotografadas. Adoram fazer selfies, mas outra pessoa fotografá-la...as pessoas realmente fogem.

E por essa razão, de uma forma mais ou menos natural, eu comecei a me dedicar a fotografar arquitetura. Com o sentimento de que arquitetura é um documento histórico extremamente importante. Você pode ler - entender, compreender - através dela, o desenvolvimento da tecnologia e da capacidade de criação do homem e da mulher. Hoje temos grandes arquitetas, também. E isso com uma liberdade muito grande, porque eu já fotografei bastante arquitetura a pedido do arquiteto daquela residência, daquele edifício. E com o maior respeito, porque eu também sou arquiteto e, como eu disse, eu tenho duas filhas arquitetas. Mas é muito chato fotografar dessa forma, porque os arquitetos querem...é como se fosse um retrato deles. Eles querem que apareça como eles se veem, o mais bonito possível. E ficam te dirigindo, essa coisa toda. Mas faz parte do trabalho profissional.
Recentemente eu ganhei essa liberdade de poder viajar um pouco pelo Brasil, um pouco fora do Brasil, e escolher certos ícones da arquitetura, justamente pensando nisso – que ela é um testemunho da evolução do conhecimento humano. Temos alguns monumentos como as pirâmides do Egito, que tem...o que? 50 mil anos, ou mais, não me lembro agora. Então passando depois pela arquitetura da Idade Média, arquitetura medieval ou Gótica, depois vem o Barroco, o classicismo, o modernismo, e hoje a arquitetura contemporânea... São coisas muito diferentes, mas a grande vantagem – elas estão lá para você ver, elas são perenes. Aguentam a passagem do tempo. Então a arquitetura tem essa qualidade de nos guiar, quase que nos pegando pelas mãos, porque te passa essa leitura da evolução da tecnologia e dessa capacidade criadora do homem e da mulher. Então eu tenho feito isso...e evidentemente, voltando pra trás, as aulas que eu tive de comunicação visual, de história da arte...de uma forma meio inconsciente – de tanto ver os professores nos mostrando quadros importantes, as linhas de força...essa coisa toda...

E no caso da arquitetura, ela ainda te impõe, né? Não é um outro tipo de foto...por exemplo, com a cidade - que é muito caótica - diferente do conjunto da cidade, né? Porque um prédio não combina com o outro, as ruas são tortas, tem todo aquele alinhamento de uma cidade como Paris...São Paulo, e mesmo o centro do Rio, ele é feito dessas surpresas. Porque no meu entender, com o maior respeito por Paris, mas é muito interessante...você pode ficar dando a volta no quarteirão, e sempre vai acontecer uma coisa diferente. Porque não são só os edifícios, mas a quantidade de pessoas e de veículos que passam. Então nessa situação, é um desafio muito grande você fotografar algo que faça sentido, que tenha equilíbrio. Requer uma paciência de pescador. Você se posta...você vai fotografar um edifício e de repente vem um carro... ou então uma Kombi, que para na sua frente, entende? Kombi...respeito a Kombi, porque foi nela que eu aprendi a dirigir, mas ela é um trambolho fotograficamente. E você se sente então como um maestro que não tem uma batuta para organizar todo aquele caos que está diante de você. Às vezes se não é a Kombi, é uma nuvem que vem e tapa o sol, muda tudo. Ou pessoas que passam de uma forma desordenada. Uma multidão...é raro você flagrar uma situação em que todas aquelas pessoas estejam em harmonia. Porque não existe o compromisso de ninguém que está por aqui de posar para o fotógrafo.

É uma dinâmica que é interessante, realmente é desafiadora, e isso me motiva muito. Tem uma hora que eu falo, eu consegui! Hoje em dia então, com uma câmera digital, você fica muito mais certo de que conseguiu. Essas limitações, ao contrário do que a gente imagina, são a sua força, sabe? Isso eu vi num livro do Ernesto Sábado, um escritor Argentino, que se chama O escritor e seus fantasmas. Eu fiquei fascinado e tal...porque aquele livro caiu nas minhas mãos porque a foto da capa é uma foto que eu fiz. Eu lendo esse livro...é um livro assim, delicioso...ele fala que as limitações de todas as linguagens são na verdade a sua força. Ele compara com o teatro, que tem que contar uma história, a vida, entre três paredes...tem o teatro de arena, mas não é como o teatro clássico, uma cena clássica, que você tem a quarta parede e é a plateia. Então você tem que usar a imaginação para representar a vida. Isso é ótimo... (falha na gravação)...a vida tem o cotidiano, que é aquilo que o professor Antônio Candido chama de “a vida ao rés do chão” – aquilo que cotidianamente, em sequencia, se repete...e o desafio do fotógrafo é conseguir um diamante ali, que brilha, nesse marasmo todo da vida cotidiana.

Então a gente está sempre em busca das emoções e... respondendo agora a sua pergunta...eu fico realmente sentindo o desafio de descobrir uma harmonia naquilo tudo. É mais tranquilo, você pode parar para pensar, é diferente daquela dinâmica da vida de cidade, onde tudo se movimenta sem que você tenha o poder de você mesmo organizar – falar “ô, para aí você...” isso não existe, né? Então a arquitetura está lá e evidentemente a gente tem que ter respeito diante da obra do arquiteto... que ela já te impõe de uma certa forma, pelas suas qualidades. Então é isso o que eu mais tenho feito hoje, e foi com esse espírito...daí evidentemente sem o arquiteto...e com os escombros do Museu Nacional. Porque eu queria mostrar um pouco a força da tragédia, de uma forma plasticamente forte, né? Sem que aquilo pudesse parecer...ai que bela foto que o Cristiano tirou...não era essa a intenção. Mas um pouco...- sem ser panfletário, né? – mas querendo com um certo didatismo mostrar essa tragédia que...como eu te disse, o que me impressionou demais são as vigas - que já tem um sentido da própria estrutura, é o elemento mais forte ali fisicamente, que é o aço, que suporta as paredes, os tijolos, essa coisa toda... – elas estavam retorcidas, né? A imagem que me vem a cabeça é essa mesmo – como se fosse uma toalha que você pega e torce...ela estava praticamente desse jeito.

Foi então essa sensação de perda, é uma coisa que não tem volta...uma vez eu tive que escrever a respeito da cidade do Rio de Janeiro. Não me lembro exatamente agora o livro que e fiz, e tal...E eu sinto isso – a gente vê as fotos de um grande fotógrafo do século retrasado, depois um pouco do passado...o Marc Ferrez, que fotografou o Rio e que era a paisagem, né? E uma ocupação discreta, urbana, na cidade. E com o passar do tempo...é lógico, a cidade tinha que se expandir. Até porque ela era uma atração – ela foi capital do Império, capital da república... mas de repente eu acho que se perdeu a noção das coisas e vendo uma foto hoje do Rio...são fotos ainda belíssimas, porque realmente – a paisagem, a topografia é algo assim que não existe no mundo inteiro! Mas a gente fica assim com uma sensação de perda...eu fico imaginando...não precisava ser no século retrasado não...a gente vê um pouco da Bossa Nova e tal...eu fico imaginando, o Vinicius de Moraes, com os outros compositores...o Tom Jobim...sentados ali em Ipanema. E que tem fotos da década de 60 também, feitas por grandes fotógrafos que trabalharam para a revista Cruzeiro e Manchete...que mostram o Rio ainda plástico e muito bonito. Então hoje, com tudo que está acontecendo...não só no Rio, mas no Brasil inteiro...São Paulo é um mau exemplo, talvez por não ter nenhuma paisagem para ser preservada, ou mesmo uma arquitetura...teve, talvez...mas nada como no Rio de Janeiro, como Salvador, outras cidades que tem um patrimônio histórico muito importante. Mas aqui em São Paulo, uma coisa de 20/30 anos, é velho. Derruba, faz outra coisa. Faz parte, para uma cidade como essa...hoje eu vejo os historiadores aqui da arquitetura, tem pouco a ver e analisar. Tem o Teatro Municipal, alguns outros edifícios...mas em suma, é isso! A arquitetura é sempre o que vai me atrair.

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