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Transcrição: As crianças sabem correr das balas mas não sabem fugir do veneno

Eu fiz na minha dissertação de mestrado, que eu trabalho com... eu escrevi sobre Taquara, que é uma terra indígena em Juti...onde vive Valdelice Veron, onde o pai dela foi assassinado - Marcos Verón, 2003.

E onde as mulheres sofreram violência...morreram várias crianças de fome na beira da estrada né, nos despejos. Morreram Nhandecis e Nhanderus, que é os rezadores, teve casas queimadas... houve três despejos. Esses três despejos foram de extrema [inaudível]. E eles estão em litígio, tentando a demarcação nessa terra, já teve GT, já teve todo... teve a portaria e tudo mais, e essa terra continua em litígio. O dono é o JHS, Jacinto Honório da Silva.

Então assim, aí eu comecei a fazer fotografia né? Aí eu comecei fotografia de soja. Porque eu nunca tinha visto um pé de soja. E eu não sabia pra que que servia a soja. Aí eu descobri que a soja servia pra fazer comida pra animais. Então aí depois eu comecei a fazer a fotografia de cana lá no Mato Grosso do Sul e da Terra [Vermelha?]... aí eu comecei a fotografar os indígenas de longe. Comecei a fotografar os objetos... e aí, fui fotografando. Saí fotografando tudo. E aí na minha dissertação de mestrado eu coloquei um capítulo inteiro só de fotografia. E aí comecei a fazer registro. Então eu fiz muito registro de fotografia dos Kaiowas, inclusive de chuva, dos rituais....Dos rituais eu não divulguei né, porque eu não quis divulgar. E fui fotografando. Mas essas fotografias elas são para registro histórico assim... tipo, se algum dia alguém precisar disso eu tenho, né?

Eu fotografo a Valdelice Veron. Porque Valdelice Veron é uma liderança brasileira, mundial. É engraçado porque eu digo assim - Valdelice... A Valdelice faz antropologia na UNB, tá? Faz doutorado em Antropologia. Eu disse, Valdelice Veron, como é que fica isso? Vocês denunciam o genocídio aqui, as crianças tão morrendo de fome, há invasão de terra, os pistoleiro atacando, e o que que faz? Vamos denunciar, e o que que faz? Ela disse "Pietra," ela me chama de Pietra, "Pietra, só falta denunciar pra Marte. Porque a gente já denunciou em tudo quanto foi lugar. [inaudível] na Inglaterra, na França, já fez todas as denúncias do mundo, e os Kaiowá continuam sofrendo genocídio". As crianças do Mato Grosso do Sul - e aí eu fiz esses registros fotográficos... e também fiz gravações desses registros, eu fotografo e faço os registros áudios, né? Eu faço os áudios - tem crianças no Mato Grosso do Sul que come uma vez ao dia. Quando eu vou pra o Mato Grosso do Sul eu como uma vez ao dia. Eu como uma vez ao dia só. Aí de manhã tu toma um tererê, tu almoça e tu não janta. Tu só come uma vez ao dia. Tu passa fome lá. Porque não tem comida lá, sabe? Aí tu é cercado lá por soja e cana de açúcar, ou boi. Soja é quente, é quente, é um lugar quente, horrível. E aí tu não pode nem tomar um banho, porque se tu for tomar banho, tomar aquela água. As águas são - e isso aí também tirei bastante fotografia - elas são envenenadas. O fazendeiro vai lá e coloca veneno nas águas para se tu tomar aquela água tu morre envenenado. E aí umas das coisas mais tristes assim que eu presenciei foi uma fala da Jaqueline Kaiowá, que é a Jaqueline Gonçalves, que ela me disse assim... A gente tava andando lá na aldeia [Boró?] e ela me olhou e me disse assim - Sabe Pietra, as crianças sabem correr duma bala. Dois anos já sabem se enfiar dentro dum buraco e correr. Mas elas ainda não aprenderam a fugir do veneno. Porque agora [o que] eles fazem, os fazendeiros lá, é jogar veneno em cima das retomada... então as crianças não sabem fugir do veneno. Agora elas tão tendo de aprender a fugir do veneno. Porque eles vão com os aviões e jogando veneno por cima das crianças. Então eu registro isso. E eu também né, sou ameaçada de morte lá. Ultimamente, agora eu recebi né, um aviso pra mim tomar cuidado com isso. Mas eu não tenho medo. Eu não vou parar com isso, eu não vou parar, vou continuar fazendo o que eu faço, eu não tô nem aí pra isso. Eu sou batizada também pelos Kaiowá. Eu fui batizada pela Mama Júlia. Mama Júlia me batizou. Eu tenho um nome Kaiowá. Eu sou Apurinã e eu também tenho um nome Kaiowá. Eu vou sempre defender Valdelice Veron. Eu vou sempre estar apoiando o povo Kaiowá. Porque o povo Kaiowá é o povo que está sofrendo genocídio há mais de 30 anos e ninguém lembra dos Kaiowá. As crianças lá passam fome. Eu conheço uma indígena lá que perdeu duas filhas de fome na beira da estrada. Aí eles falam assim "Ah, porque os indígenas Kaiowá são os indígenas suicida". Eles não sabem o que é viver lá dentro, naquele sol quente na beira das estrada passando fome. Eles não sabem o que que aquele agronegócio faz. E esse agronegócio tá ligado diretamente à Avenida Paulista. Ao agronegócio de São Paulo. Quem comanda isso tudo é o agronegócio de São Paulo. E aí você fica pensando, até que ponto o Brasil vai ser conivente com isso tudo que está acontecendo.