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Transcrição: Alguma História com letra maiúscula, e muitas histórias com letra minúscula: o Museu Nacional e a Antropologia no Brasil, por Luiz Fernando Dias Duarte

Transcrição

CR: Olhando na imprensa, logo que teve o incêndio, a gente ouvia falar de vários...eles fizeram uma espécie de inventário do Museu, né? E é engraçado porque vinham coisas muito diversas como o meteorito, como você mencionou...mas aparecia também muito a figura do crânio da Luzia, que seria o mais antigo registro humano das Américas...esses objetos da antiguidade Greco-Romana, que você mencionou, e da história egípcia...é um acervo muito variado e me faz perguntar quais foram os princípios que orientaram essa reunião desse acervo tão variado...e exatamente onde e como a Antropologia se encaixa na história do Museu e da construção deste acervo.

LFD: É uma longa história realmente, né Clarice? São 200 anos...202 anos já, agora, a esta altura. O Museu, como se sabe, foi criado em 1818 já pela Coroa Portuguesa que estava aqui estabelecida desde 1808. Foi uma das iniciativas culturais importantes que a Coroa tomou naquele período. No começo ele se chamava Museu Real, e se tratava de um aglomerado de coisas muito variadas, multiformes...num prédio lá no centro da cidade...um bom prédio, um palacete importante, que ainda existe lá no Campo de Santana, lá no centro do Rio de Janeiro. E então se juntavam coisas assim, doações da família Imperial: quadros, objetos exóticos, juntavam-se animais empalhados...alguns talvez herdeiros da Casa dos Pássaros, que tinha sido um percursor do Museu Nacional criado pelo vice-rei Dom Luís de Vasconcelos, mas que já tinha se fechado. Provavelmente algumas das peças deste museu fechado tenham passado para o acervo incipiente do Museu Nacional...máquinas, enfim...moedas...havia um pouco de tudo. Porque era o único museu daquela nação que nem existia ainda, né? Nem era nação, só iríamos nos tornar nação quatro anos depois. Mas, claro, isso suscitava muito interesse na população do Rio de Janeiro, que não tinha visto nada de semelhante até aquele momento. E sucessivamente, depois da Independência, houve uma influência muito forte da família Imperial, particularmente da Imperatriz Leopoldina - que era uma mulher muito ilustrada, arquiduquesa da Áustria, com uma ótima educação, etc, etc... – e que portanto influenciou muito os rumos do Museu naqueles primeiros anos. Juntamente com José Bonifácio de Andrada e Silva, esse nosso patriarca da independência, e que também era um cientista – o primeiro grande cientista Brasileiro. Ele era um mineralogista importante, tinha se formado na Alemanha, nesta área. Tinha vindo trabalhar para o governo de Dom Pedro I, e foi aparentemente uma decisão dele a compra por Pedro I da coleção egípcia que estava sendo apresentada por um mercador italiano no porto do Rio de Janeiro. Eram assim, iniciativas muito...ah, um elemento muito importante a ser lembrado: no tesouro Português, trazido pela Coroa fugindo de Napoleão, havia uma coleção de minerais muito famosa. Uma coleção didática de minerais, que é conhecida como a coleção Werner, que é o nome do geólogo Alemão que a constituiu e de quem a Coroa Portuguesa a tinha adquirido. Esse Werner tinha sido inclusive professor de José Bonifácio na Universidade de Freiberg. Essa coleção muito famosa, inicialmente ficou na Academia Militar, mas depois foi incorporada ao Museu Nacional e seus exemplares...muitos de seus exemplares sobreviveram inclusive ao incêndio. Estão lá, fazendo parte do nosso acervo recuperado. Essa coleção então foi provavelmente a coleção em si mais importante no começo da vida do Museu.

Bom, aí progressivamente nós temos que chamar a atenção para um ponto muito importante – com a vinda da família Real, o Brasil foi aberto a visitação dos cientistas de todo o mundo, o que não podia se fazer antes, durante a colônia. O próprio Alexander von Humboldt - um dos grandes cientistas alemães do século XIX, que atravessou todas as Américas - não pôde entrar no Brasil. Foi considerado pelo governo Português como um espião. Mas a partir da abertura dos portos, e depois da Independência, os cientistas naturalistas viajantes, que estavam conhecendo a natureza e as culturas de todo o mundo, passaram a visitar também o Brasil - a descrevê-lo, a fazer coleções, depositando parte dos seus materiais neste Museu Nacional que começava a crescer cada vez mais.

Então as coleções iam crescendo desta maneira, coleções naturalistas – de Zoologia, Botânica, Geologia, Paleontologia...coleções de ciências humanas, né? Que ainda não se conheciam como tais naquela época - materiais indígenas, materiais de outras culturas... nós tínhamos, por exemplo, peças extremamente raras das culturas do Pacífico, das quais a mais bonita era certamente o manto real dos reis do Havaí, que tinha sido doado ao Imperador Pedro I quando um dos reis do Havaí fez a sua primeira visita a Europa de navio. Ele passou pelo porto do Rio de Janeiro e trocou bens de estado com o Pedro I. Esse manto de plumas havaiano eram uma das nossas raridades mais incríveis que se perdeu.

Bem, com isso...enfim, vai se vendo... isso foi crescendo, crescendo...uma biblioteca se constitui, cientistas cada vez mais bem treinados passam a dirigir o Museu, a dirigir as seções do Museu - estrangeiros e nacionais já também nesta altura. E o Museu vai se tornando cada vez mais uma casa de ciência efetivamente, que ele não era exatamente no começo. Era mais o que se chama às vezes de um gabinete de curiosidades, no estilo do renascimento europeu.

Mas foi se transformando então num museu, claramente, configuração que ele assumiu plenamente nos anos de 1870 – nas mãos de um grande diretor, que foi longevo, Ladislau Netto. Ele era botânico de formação, mas tinha interesse também em etnologia, em arqueologia...foi iniciativa dele a realização em 1882 da primeira exposição etnológica Brasileira. É um evento muito raro, muito precioso, porque embora houvesse ainda pairando fortemente no ar as perspectivas evolucionistas,
que consideravam os indígenas seres atrasados, retrógrados, arcaicos foi a primeira vez que eles foram levados a sério, digamos assim. Fora as catequeses coloniais e a escravização. Então eles foram apresentados com as suas culturas, vieram inclusive representantes de duas etnias - dos Botocudos e dos Xerentes que ficaram participando das exposições. Ficaram muito estressados com o movimento do Rio de Janeiro, das ruas do centro do Rio de Janeiro em 1882. Então eles foram abrigados nos jardins do Palácio de São Cristóvão. Porque o Imperador tinha um carinho enorme por essa exposição. Então é muito interessante isso – é uma espécie de premonição do destino do Palácio em se tornar um museu depois. Essa exposição foi muito importante, foram feitas coletas. A essa altura também o Museu já tinha os seus próprios naturalistas viajantes, que faziam as coletas necessárias para completar as áreas em que havia falta de material em relação a tal ou qual área.
A partir de 1870 então essa geração do Ladislau Netto cria a primeira revista científica brasileira, que ainda é editada, Os Arquivos do Museu Nacional. A edição de uma revista não era uma coisa banal naquela época, era fundamental para os museus que estavam se aparelhando em todo o planeta. Porque elas permitiam a permuta científica. Então a nossa biblioteca passou a receber as revistas de todos os grandes museus do mundo, que estavam se transformando todos naquela época. Porque a gente hoje fala, enfim...os museus de história natural de Paris, de Londres, de Nova Iorque, de Washington, etc. mas esses museus...alguns foram criados antes, mas todos eles se transformaram nos grandes museus que eles são hoje neste mesmo período, a partir dos anos 1870.

Então houve um movimento de intercambio científico, de peças, de informação, e de revistas, muito importante a partir deste momento. E com isso o museu realmente deslanchou como uma instituição de renome internacional. Nesta época ele foi também um polo intelectual muito forte. Em primeiro lugar, eu nem preciso dizer que o Museu era uma das poucas instituições culturais do país, funcionando...havia o Museu, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (que tinha sido fundado dentro do Museu), algumas sociedades que não sobreviveram, a Sociedade Vellosiana... o Jardim Botânico existia, evidentemente...ele tinha sido criado aliás antes do Museu Nacional, mas ele não era necessariamente uma instituição de pesquisa até os anos de 1870 também. Era mais um jardim de aclimatação espécies exóticas. E com isso então tudo se concentrava muito no Museu, que teve o primeiro laboratório de química, o primeiro laboratório de fisiologia experimental, tudo isso nasceu dentro do Museu...

Mas sobretudo uma coisa muito importante em termos de história das ideias, que foi o evolucionismo. O Museu abraçou o evolucionismo do Darwin, do Spencer e do Haeckel – os três grandes evolucionistas da segunda metade do século XIX. E, inclusive um dos nossos – eu digo, do Museu - naturalistas viajantes, o alemão Fritz Müller, que trabalhava no sul do país, foi um interlocutor direto do Darwin. Escreveu um dos primeiros trabalhos de defesa da teoria da evolução Darwiniana, o “Para Darwin”, e era um interlocutor pessoal do Darwin.

E o Ladislau Netto foi um grande defensor público, né? O Museu a esta altura também já tinha as suas palestras públicas, as suas aulas públicas. Então, esse fermento ideológico da nação - o positivismo, o evolucionismo - passam por essas aulas públicas, por esses cursos públicos, que o Museu fornecia junto com outras instituições já a esta altura também, menos importantes...

Terminado o Império, o Palácio, como eu disse, serviu para a primeira assembleia constituinte republicana, e logo em seguida ele foi entregue ao Museu Nacional. Era uma coisa muito importante, muito interessante, dada a importância da ideologia positivista naquele momento, que tinha a ciência como valor fundamental dos Estados modernos. Então é como se, derrubado do trono do Imperador, lá se colocasse a ciência entronizada, literalmente, presidindo os destinos da pátria. Foi um trabalho bastante complexo de transferência do museu para um algum lugar relativamente remoto, como era São Cristóvão ainda naquela época. E a partir daí abriu-se então toda a nova perspectiva do século XX, com grandes inovações.
Uma parte da sua pergunta se relacionava com o surgimento da antropologia, ou seja, das ciências humanas, né? Porque efetivamente o Museu era um museu de história natural. Ao longo do século XIX, as ciências naturais têm um desenvolvimento extraordinário, marcadas por um certo cientificismo, naturalismo, etc. Então se coleta indeterminadamente todos os testemunhos da vida natural, geológica, paleontológica, zoológica e botânica. E também, antropológica, ou seja, sobre o ser humano. Mas de um ponto de vista que não era ainda o das ciências humanas. Era a antropologia física na época, a chamada antropologia física... que hoje se chama antropologia biológica, que continua existindo, muito importante no Museu Nacional. Mas naquela época, do ponto de vista dessa antropologia física, o ser humano era uma variante da natureza. Então media-se os crânios, media-se a reação dos membros do corpo, etc., mas não se estava interessado na cultura, na linguagem, nos hábitos e crenças da população. Isso já aparecia nos registros do Museu, mas era uma coisa bem secundária. Apareceu inicialmente como os testemunhos da indústria humana, ou seja, de tudo que era feito pelo ser humano. Depois isso passa a ser referido como os usos e costumes, que foi uma expressão que correu o mundo neste período. E que eram os relatos dos viajantes, dos missionários, dos administradores coloniais sobre como se comportavam tal e tal sociedade, tal e tal etnia.

Foi só nos anos 1880 que a palavra etnologia apareceu oficialmente nos regimentos do Museu. Era uma seção, a quarta seção, que passou a ser chamada de seção de Antropologia, Etnologia e Arqueologia. A Etnologia neste período significava justamente o estudo das sociedades primitivas, as sociedades de pequena escala, as sociedades indígenas. Então nós passamos a ter partir daí essa relativa tensão entre uma incipiente preocupação com a cultura e uma todo poderosa antropologia física, que era muito importante lá no Museu. O João Batista de Lacerda, um de seus diretores, era um cientista conhecido mundialmente pelos seus trabalhos na antropologia física. No Museu se discutiu intensamente teses a respeito do papel da raça na constituição da sociedade brasileira. Como se sabe, na segunda metade do século XIX, as teorias do chamado racismo científico estavam prevalecendo - com a teoria da degeneração, com um medo da miscigenação entre as raças. E o Brasil, com a alta taxa de miscigenação efetivamente, de articulação entre as diferentes origens étnicas, era considerado por alguns intérpretes como um país inviável. Porque ele jamais chegaria à civilização por causa da sua miscigenação.
Mas dentro do Museu começa a se constituir as teorias que vão se contrapor a isso e que vão culminar em Roquette-Pinto, outro importantíssimo pesquisador já na área da antropologia, né? Diretor do Museu Nacional...como se sabe, patrono da radiodifusão, da educação científica, etc, etc., mas que foi também um defensor de uma atitude contrária ao dito racismo cientifico e ao eugenismo - que acompanhava o racismo científico, e que era a teoria de que se deveria fazer uma seleção dos seres humanos, visando o seu aprimoramento racial.

Pela via de Roquette-Pinto vai se abrir o caminho para uma antropologia social e cultural que vai florescer plenamente no Museu já depois da Segunda Grande Guerra. Então nós temos a Heloisa Alberto Torres, importante diretora, discípula de Roquette-Pinto... Luiz de Castro Faria, discípulo de Heloísa Alberto Torres, que vai ser um cientista fundamental para fazer a passagem da antropologia no sentido lato - que cobria a antropologia física, linguística, a arqueologia e a antropologia social e a etnologia - para os novos horizontes que estavam naquele momento em plena efervescência no mundo todo. Então a partir dos anos de 1960, começa a se constituir os cursos de especialização em antropologia cultural e social no Museu, com o patrocínio de Luiz de Castro Faria e de Roberto Cardoso de Oliveira - que tinha vindo de uma formação em Sociologia com Florestan Fernandes em São Paulo, e que apoia esse projeto. Esse projeto tem um apoio indireto também de Darcy Ribeiro, que nunca foi do Museu, mas estava no Museu do Índio. Quem contribuiu muito para o Museu foi sua mulher, a Berta Ribeiro, que era uma antropóloga também, coletora de coleções importantes para o Museu. Enfim, a partir desse grupo inicial, desses cursos, que se criou o Programa de Pós-graduação em Antropologia Social, o PPGAS. Que é um curso extremamente valorizado desde 1968, sempre teve as mais altas notas das classificações do Ministério da Educação e da CAPES, e do qual eu sou professor. Imagine, quanta honra para mim! Então esse é um relato muito breve, muito sumário, desse trajeto, que é um trajeto complexo, um trajeto cheio de acidentes, de dificuldades...mas que revela muito bem as dificuldades que as ciências humanas tiveram para nascer em todo o mundo. Porque não foi só aqui que elas enfrentaram esses desafios, foi por toda parte. Nos Estados Unidos, Franz Boas, que foi o criador da antropologia Norte-americana, estadunidense, ele se treinou justamente na luta contra as teorias racistas que dominavam a academia Norte-americana naquele período, assim como dominavam a da Inglaterra, etc...

Sem falar obviamente no nazismo e no fascismo. Particularmente no nazismo que tinha levado às últimas consequências essas teorias racistas e degeneracionistas. Bem, essa eu acho que é um pouco a história dessas coleções e desse surgimento das ciências humanas, dentro desse espaço tão complexo, tão variado, tão rico, que era o nosso Museu, e que voltará a ser!

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