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Transcrição: Da preservação do patrimônio histórico ao luto depois da tragédia: a fotografia como testemunho, por Cristiano Mascaro.

CR: Cristiano eu vou começar pedindo para que você contar um pouco a história dessas fotos – são dois momentos diferentes, são duas séries diferentes, que são reunidas numa única exposição.

CM: Perfeito. Bom, é um prazer muito grande poder participar desse evento. Porque realmente o que é levado em conta agora - a vida do Museu, essas duas vidas...eu acho que é da maior importância, porque vivemos num país um pouco carente da proteção do nosso tesouro histórico, todo o patrimônio que nós temos. Bem, a primeira vez que eu fotografei o Museu...que eu já conhecia de outras épocas, acho que passeios ao Rio de Janeiro, porque eu vivo em São Paulo... mas, em 2002, eu fui chamado pela Editora Capivara, do Pedro Corrêa do Lago, para participar de um livro, que foi uma experiência incrível. O livro se chamava “O Patrimônio Construído”, e que procurou retratar...procurou não, nós conseguimos... na verdade uma coisa rara – chamar um só fotógrafo para fotografar os 100 edifícios mais significativos da arquitetura brasileira. E o Museu Nacional estava lá, entre esses 100 edifícios. Então, foi a primeira vez que de fato eu estive assim muito presente - vamos dizer, com as minhas câmeras – diante daquele grande monumento arquitetônico, que foi residência do Imperador do Brasil. E fiquei muito emocionado com tudo isso. A cada monumento que eu visitava dos 100 listados...eram emoções diversas – diferentes muitas vezes porque era uma igreja ou era um forte, ou um antigo palácio, como na época era o Museu Nacional. Então talvez... ficaram faltando fotografar as coleções, porque não era o objetivo principal daquele livro. Eu fotografei então o edifício, a arquitetura do edifício. Então as fotografias coloridas, que fazem parte dessa minha documentação, foram feitas nesse primeiro período, em 2002. Eu não imaginava que depois de...quantos anos? 17 anos...porque foi agora em 2019, que eu fotografei...deixa só eu confirmar olhando aqui no jornal...foi no dia 1 de setembro de 19 que saiu no jornal... Eu não imaginava que depois de tanto tempo eu seria chamado a fotografar aquele Museu - mas ele transfigurado totalmente, depois de um incêndio que havia ocorrido um ano antes, né? Em 2018, foi em setembro de 2018, por uma ironia muito grande exatamente quando ele estava completando 200 anos....porque ele foi criado por Dom João VI, se não me engano...se não me engano, não, Dom João VI é um só, foi ele mesmo! Em 1818...então...assim, a sensação que eu tive, essa realmente foi de um choque, né? E uma sensação de perda muito grande. São aquelas coisas que não tem volta. E isso realmente eu acho que mexe muito com você, com as emoções. Eu cheguei...já estava acostumado um pouco com este cenário, porque no Brasil é recorrente este tipo de acontecimento, né? Aqui em São Paulo o Museu da Língua Portuguesa, ocupando uma ala da Estação da Luz – um belo edifício, feito pelos ingleses no início do século passado – também foi consumido pelo fogo. E levou muito tempo para que ele fosse recuperado...e houve uma perde de documentos também. E tivemos outro evento trágico como esse no memorial da América Latina, que também pegou fogo. Eu falei: poxa, é incrível, né? Daí eu me interessei mais...quer dizer, eu fiquei muito chocado quando eu vi na televisão as chamas todas que consumiam o Museu Nacional, na própria noite do incêndio.

É assim, uma sensação terrível. Muito parecida com uma outra que eu vivi, muito semelhante. Para esse mesmo livro, eu tive que fotografar a Igreja de Nossa Senhora do Rosário em Pirenópolis, perto de Brasilia. Uma igreja maravilhosa, gigantesca, enorme, que eu acabei de fotografar... por um lado eu “tive sorte”, fotografei ela ainda em sua integridade e originalidade. No dia seguinte eu saí de Pirenópolis e fui em direção a Brasília, quando me ligaram...o pessoal que estava me dando apoio nesse livro e disseram – Cristiano, a igreja pegou fogo, ela virou carvão, ela ficou no chão, no chão. O Museu Nacional ainda ficou parte em pé, o que não adianta muito. Mas eu vi então na televisão aquelas senhoras, que certamente eram pessoas que frequentavam a igreja, olhando paralisadas. Aquilo que você não consegue controlar, você não consegue apagar, de repente evitar que aquilo seja consumido. E no Museu Nacional, é incrível! Fiquei sabendo...andei lendo pelos jornais, e depois outros noticiários, que não havia um laudo (?) dos bombeiros. Quando os bombeiros chegaram lá, faltou água...então nós vivemos num país em que justamente isso que é extremamente importante para a nossa cultura, se dá muito pouca importância. Bom, o Museu...não o próprio prédio, que sempre foi muito importante...mas não sei se principalmente, ou igualmente, as coleções, né? Quer dizer, tudo aquilo acabou, ou virou cinzas. Daí quando tive a coragem, vamos dizer, de entrar...havia algumas limitações por de perigo ainda de desabamento, essa coisa toda...e por experiência eu já sabia também...porque eu fotografei muitas sedes de fazendas antigas pelo Brasil afora, em outros projetos editoriais. E fiquei sabendo assim – quando o telhado cai, no caso de um incêndio, ou por conta da deterioração do edifício, ele está condenado. Então ele tem que ser coberto, para que as chuvas não penetrem pelas paredes, e comecem daí a apodrecer.

Então o Museu estava nesse estado. Ele tinha uma coberta, como se fosse um estádio, uma quadra de basquete, com estrutura metálica, para que não chovesse dentro. Bom, agora entrando dentro, era tudo calcinado, sabe? O que realmente me impressionou, além das paredes todas descascadas, e misturadas com carvão, essa coisa toda...eram as grandes vigas de aço, tortas, entortadas...parecia que você tinha feito...quando a gente vai torcer uma toalha e ela fica retorcida assim. Aquilo realmente me impressionou muito. Acho que foi a foto que eu imaginei a mais significativa. Tanto é que ela foi publicada na primeira página da Folha de São Paulo, o jornal que havia me encomendado...para fotografar que estado estava o Museu depois de um ano. Então isso é interessante, porque logo após o incêndio já foi uma tragédia, né? E fica esse fato muito marcante. Outro fato muito marcante é que um ano depois, pouca coisa foi feita por falta de verba, né? Eu pude entrar, caminhar um pouco, tinha limitações realmente, que eu respeitava em benefício próprio, para não ter uma estátua daquela caída na minha cabeça. Mas...fiquei assim impressionado, com essas cenas no que eu percorri. E pelos restos de coisas, né? Eu vi que as pessoas com aquele cuidado, varriam o chão para juntar cacos de coisas que sobraram. O que eu acho impossível, porque...eu também fiz uma fotografia nos containers que estavam instalados ao lado do Museu, onde havia técnicos que estavam recuperando aquilo que para nós que temos uma certa impaciência, vamos dizer assim...eu via aquelas pessoas pacientemente, com aqueles pinceis muito delicados, tirando a poeira de pequenos caquinhos. Então eu falei - puxa vida, será que isso um dia vai ser reconstituído? E de que forma?

Pelo que eu pude ler também, uma quantidade ínfima do...quanto eram? Eram dois milhões? Deixa eu ver aqui quanto eram...Dois milhões de peças.

CR: Vinte milhões

CM: Vinte milhões. Nossa, um zero aí faz uma diferença. Eram pouquíssimas...acho que 10%...você está muito melhor informada do que eu. Então isso realmente me assustou...me assustou não, eu fiquei surpreso com os vinte milhões de peças. Dois milhões já seriam muitas...então, algo assim, irreparável!!

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