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Transcrição: Eu sou Kuawa e ando com Claudia

Eu sou Kuawa Kapucaia Apurinã, do povo Apurinã, do médio Purus. Estou antropóloga, sou formada em artes visuais e formada em direito, e também estou doutoranda em antropologia pela Universidade Federal Fluminense. É… ao acessar as imagens da Cláudia… Cláudia Andujar, Andujar, aquela que anda, a gente já chega andando. E quando a gente anda, a gente encontra. E quando a gente encontra parece que esse caminhar ele tem muito mais do que a gente busca encontrar e o que a gente encontra. E quando eu... Eu não conhecia o trabalho dela. Eu já tinha ouvida falar, de algum modo. E… esse ouvir falar ele ressoa como um trabalho... sempre diziam “ah, ela tem um bom trabalho”, “ah, ela fotografou, ela teve lá na época da ditadura militar. Né? Com os Yanomamis. Hoje a gente sabe muito bem como é que eles vivem, né, o conflito que eles vivem hoje já vem desse tempo. Me ressoa também Davi Kopenawa, que escreve, né, sobre a queda do céu, um xamã. E aí eu venho da... aí eu comecei a olhar o trabalho da Andujar. E… Andujar que anda. Andujar que andou e teve naquele lugar, uma mulher. Primeiro a gente tem que pensar que é uma mulher. Uma mulher, que nós, mulheres, né, estamos sempre naquele lugar da violência, do machismo, do patriarcado, de todas essas coisas que nos acometem. Nos colocaram nesse lugar nessa sociedade que, além de sermos mulheres, também somos pessoas que de algum modo é… sofremos violências. Aí eu acesso esse trabalho, eu tive esse… eu posso considerar privilégio. É um privilégio acessar o trabalho dela. Então… e aí eu fiquei imaginando “o que que ela… o que que ela viu lá?”. Aí eu fiquei pensando nos olhos dela. Ela no meio da mata, no meio da floresta, com o povo… com o povo Yanomami, né, talvez ela não soubesse falar o português, ou o yanomami, falava português. Como é que se deu essa comunicação dela? E aí quando você veio falar para mim “eu trabalho com… eu estou num núcleo de acessibilidade, para as pessoas que não enxergam”, bem, não enxergam com os olhos. A gente… existem outros modos de enxergar. É, e… a gente enxerga as vezes com... com o nosso espírito, a gente enxerga com as nossas narinas, com nossos ouvidos. Aí eu fiquei imaginando a Andujar lá, enxergando com… não sabendo falar português, mas enxergando com cheiro, com os sentidos e… enxergando com a própria lente dela e tentando traduzir aquilo que ela via para trazer para a nossa contemporaneidade. Hoje estamos em 2020, em plena pandemia, e… e de algum modo essas imagens, sabe, me… me consolaram, eu estou extremamente emocionada para falar isso, porque me consolaram, porque... a gente tá no meio de uma pandemia, a população indígena brasileira está sofrendo ataques e ataques, a gente possivelmente vai ser julgado o marco temporal, a gente… mais de oitocentos indígenas já morreram de COVID, temos mais de 156 etnias contaminadas dessa pandemia, é… sofremos ataques, Amazônia queimando, o Pantanal queimando, os nossos biomas sofrendo, e aí vem a Andujar, a que caminha né, vem a Andujar... os Yanomamis, essa mulher que teve lá, tanto tempo atrás, lá… enxergando... com outros sentidos né? Com os outros olhos. E… parece que a morte ela não tem sentido com a arte. A morte ela não tem sentido com a arte, e quando a morte não tem sentido com a arte… a morte, ela não tem sentido perante a arte e… e a arte ela é… ela vibra. E ela vibra muito mais quando a gente fala de povos indígenas, ela vibra muito mais quando a gente fala de ancestralidade. E… eu me emociono sempre quando eu penso, né, nesses povos, nos meus parentes. Que estão sofrendo. Os Yanomamis sofrem. E… gostaria muito de um dia estar com eles e poder também “andujar” por lá, como Andujar esteve lá. E… sentir, né, sentir, ouvir. Ouvir… ouvir o barulho que ela ouviu, mas outros barulhos, não mais o barulho dos garimpos que estão nas suas terras lá, dos conflitos que acontecem naquele lugar. Porque a gente sabe o que acontece naquelas terras e o que nos ameaça hoje, né? A gente sabe que o que acontece nas terras indígenas, o que nos ameaça, os garimpos que nos ameaçam hoje.