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Transcrição: Passeio Virtual

CR: Então eu vou começar comentando que a gente pode ver nas fotos do Cristiano Mascaro o Palácio de São Cristóvão, que abrigava o Museu Nacional. Esse palácio era imenso, e ele se destacava ainda mais na paisagem da Quinta da Boa Vista por estar no alto de um morro. Mas o Museu Nacional é bem mais do que o Palácio de São Cristóvão. Então Luiz Fernando, como você menciona no texto curatorial para essa exposição existem outras áreas na Quinta da Boa Vista que estão ligadas ao Museu e que sobreviveram ao incêndio. Você poderia descrever um pouco melhor a distribuição dos prédios da Quinta da Boa Vista e os diferentes departamentos vinculados ao Museu Nacional?

LFD: Muito bem, Clarice. É uma satisfação dar mais carnadura a essas belas fotos de Cristiano Mascaro, que nos apresentam alguns aspectos da vida do Museu Nacional pré-incêndio e a situação triste em que ficou o Palácio de São Cristóvão após o desastre. A explicação mais completa do que é a relação entre o Palácio de São Cristóvão e o Museu, é absolutamente necessária para compreender o que se está fazendo atualmente para a recomposição do Museu como todo, e especificamente a reconstrução do próprio Palácio. Para quem entra na Quinta da Boa Vista, que é um amplo parque situado na Zona Norte do Rio de Janeiro, vai se deparar com uma grande avenida, reta, margeada por belas árvores que se tornam rosadas e lilases em certo momento do ano - as sapucaias plantadas pelo grande paisagista que desenhou a Quinta da Boa vista no tempo do Império, Auguste Glaziou. Ao fundo se vê a massa do Palácio, um prédio neoclássico no seu formato final. Ele se transformou bastante ao longo do século XIX, mas assumiu esse formato neoclássico pleno ainda durante o Império. Um prédio de três andares, com uma vasta fachada coroada por estátuas de mármore que representavam deuses gregos. Enfim, tudo bem no estilo neoclássico, na medida em que vocês o conheçam. Não há tantos exemplos assim no Rio de Janeiro, mas eles são muito importantes.

A entrada principal da exposição se dava justamente na fachada, por um hall em que avultava a personagem do meteorito Bendegó, uma das nossas peças mais famosas, situada bem no meio do salão inicial, ladeada por um retrato de corpo inteiro do Marechal Rondon, o grande protetor dos indígenas brasileiros. E que representava a relação que o Museu sempre teve com essa dimensão da vida nacional, o indigenato, as sociedades indígenas, através da Antropologia que se pratica no Museu. E do outro lado um retrato de corpo inteiro de um indígena também, justamente, que serviria assim como uma introdução muito forte do que era o espírito do Museu Nacional.

O Palácio abrigava exposições, as exposições públicas que muitos de vocês provavelmente chegaram a visitar quando crianças, junto com suas escolas, outros talvez não, enfim...Mas abrigava também uma série de outras atividades muito amplas. Abrigava a guarda das coleções científicas, quase 20 milhões de itens das diversas áreas científicas cobertas pelo Museu. Abrigava laboratórios científicos, abrigava gabinetes de trabalho, abrigava bibliotecas, abrigava uma infinidade de atividades técnicas ao lado das atividades científicas necessárias a uma instituição de ciências e ensino como é o Museu Nacional.

Então, quando nós adentrávamos o primeiro pátio - o primeiro pátio descoberto do Palácio – marcado por uma grande escadaria de mármore que levava direto do térreo para o primeiro andar (que era o andar nobre do Palácio), nós já descortinávamos as possibilidades de expansividade do prédio. Nesse primeiro andar - ou seja, no segundo andar, o primeiro acima do térreo – encontravam-se as salas históricas, com a sua belíssima decoração original...a sala do trono, a sala dos embaixadores, a capela da Imperatriz, e com menos decoração, mas com uma aura muito forte histórica, o espaço que tinha sido o gabinete de trabalho do Imperador Pedro Segundo. As duas salas, a do trono e dos embaixadores, tinham uma decoração famosa, uma decoração feita por um pintor italiano, Mario Bragaldi, em trompe l’oeil, que é uma produção de uma ilusão de ótica no teto que, enfim, tornava mais profunda a impressão da altura do teto.

Isso...enfim, tudo agora está destruindo e é muito triste. Mas a partir dali se seguiam então as salas, as galerias com a apresentação de todas as exposições que nós mantínhamos. Exposições de arqueologia Brasileira, exposições de arqueologia Andina, exposições de arqueologia clássica Greco-Romana e de arqueologia Egípcia, né? As famosas múmias do Museu Nacional. Tínhamos também exposições de etnologia, materiais das culturas indígenas do território Brasileiro. Tínhamos exposições de zoologia, de diversas áreas da zoologia, diversos tipos de animais – aves, batráquios, insetos...enfim, vários ramos da zoologia. E tínhamos também os famosos dinossauros, toda a área da paleontologia, extremamente importante no Museu. Belas salas com a reconstituição de esqueletos completos de animais pré-históricos, entre os quais um famoso dinossauro. Mas com muitas outras espécies importantes da paleontologia. Infelizmente a única área de pesquisa do Museu que não era representada na exposição era a botânica. É porque a botânica exige algumas outras especificidades. Esperamos que ela venha a participar das futuras exposições que já estão sendo planejadas para a reabertura do Museu. No andar térreo havia também algumas áreas importantes para a vida do Museu, como a sede da sessão de assistência ao ensino, que era a área que fornecia assistência às escolas e aos estudantes - que eram a plateia, a frequentação mais intensa do Museu. O nosso trabalho enquanto Museu era um trabalho de educação científica. E com isso se recebia, se atendia, e se explicava, e se monitorava a visitação de grupos escolares. Às vezes com treinamento dos próprios professores, que passavam por uma por uma organização prévia, de modo que a rentabilidade das visitas fosse a maior possível. Também é nesse andar que estava sediado o serviço de museologia, ocupado com a programação e a manutenção dessas diversas exposições que nós mantínhamos. Mantinham-se exposições permanentes e exposições temporárias, sempre que tínhamos a ocasião de fazê-las. Algumas dessas exposições temporárias fizeram muito sucesso, como uma de dinossauros, outra sobre o Movimento dos Sem Terra, enfim coisas muito interessantes e importantes da vida natural e social do país, que mereceram exposições temporárias neste espaço do Palácio.

E para trás, chegava-se a um segundo pátio descoberto, que era o chamado Pátio do Chafariz. Este pátio era particularmente histórico, porque além de pertencer ao Palácio Imperial, nele tinha se realizado a primeira Assembleia Constituinte da República. Ele tinha sido coberto, tinha se montado um auditório dentro dele. De modo que ali se votou a primeira Constituição Republicana Brasileira. Ele tinha sido reconstituído como um jardim, e era um espaço muito agradável, um espaço certamente de muita sociabilidade, onde nos encontrávamos todos - professores, alunos, e funcionários - a cada momento do dia. E, em torno desse pátio, nós tínhamos então as diferentes salas de trabalho, gabinetes, salas de coleções, laboratórios, etc, etc, etc...um restaurante, à direita...um anexo, meio subterrâneo, ao lado do Palácio, à direita de quem olhasse pela fachada, onde funcionavam uma série de áreas importantes no museu particularmente os laboratórios de taxidermia e restauração. Os animais e os elementos que vão ser levados às exposições num museu de História Natural e Antropologia, como é o nosso, eles precisam passar pelo que se chama de preparação para a exposição, que no caso de animais se chama taxidermia – empalhar um elefante, por exemplo, que era o caso...nós tínhamos um elefante empalhado. Isso era o trabalho dos taxidermistas neste laboratório. Isso para o lado direito.

Para o lado esquerdo, abria-se o famoso Jardim das Princesas...abre-se, lá está ele ainda, felizmente! O Jardim das Princesas era uma parte da Quinta, elevada no mesmo nível do Palácio, que fica no alto, como Clarice há pouco mencionou...e era o espaço doméstico, digamos assim, da família imperial. Então ali se tinham construído uma série de elementos decorativos - bancos, fontes... – que tinham sido decorados pelas próprias princesas imperiais com restos de louças quebradas, com conchas... Uma técnica herdada do Barroco italiano, chamada de técnica dos embrechados, que possivelmente a imperatriz Teresa Cristina - que era italiana, tinha vindo da corte de Nápoles – teria trazido para a sua família, aqui no Museu. Infelizmente, esses elementos decorativos estão numa situação bastante precária no momento, mas há projetos para a sua recuperação, restauração plena, de modo que este interessantíssimo elemento da vida do Palácio seja reaberto ao público. Enfim, há um ajardinamento interessante também nessa área, são dois terraços ajardinados com estes elementos decorativos.

Para quem não conhece a Quinta da Boa Vista, é bom saber que no resto da Quinta, atrás do Palácio, está localizado o jardim zoológico do Rio de Janeiro. Na sua fachada, na sua entrada, encontra-se um belíssimo portão neoclássico, que foi o antigo portão do Palácio Imperial. E que foi transferido para lá nas reformas de 1911, quando o Palácio foi aberto a exposição, a visitação pública, como Museu público. Foi um presente do governo da Inglaterra, do Império Britânico, ao Império Brasileiro em meados do século XIX.

Há outras atividades, há um pequeno restaurante com uma decoração belle époque interessante, onde se fazia uma evocação do império muito simpática. E para a esquerda na direção da estrada de ferro que passa ali ao lado, antes de chegarmos ao Maracanã e à Tijuca - naquela área nós temos uma parte do Museu muito importante, que se chama o Horto Botânico. É uma espécie de Jardim Botânico, tem cerca de 40 mil metros quadrados - é uma área considerável - com espécies extremamente interessantes. Não é o horto original do tempo do Império, porque esse horto original do tempo do Império ficava justamente do outro lado, onde se montou o Jardim Zoológico. E onde ainda se encontram espécimes de plantas exóticas, como um Baobá africano, que foi provavelmente plantado pelo Glaziou, esse paisagista que eu mencionei há pouco.

Mas enfim, neste novo Horto Botânico do Museu, que tem espécimes também muito interessantes e importantes, encontram-se alguns prédios com acervo do Museu, que com isso escaparam do incêndio, felizmente. O principal deles é o prédio da biblioteca central do Museu, uma biblioteca preciosíssima, mais de 40 mil volumes, in-fólios preciosos... Um exemplar da chamada Tora, um exemplar da Torá do Imperador, que é uma peça... uma das Torás mais antigas conhecidas no mundo, escrita em pergaminho. E enfim, um material muito rico, muito precioso. Isso felizmente escapou do incêndio. Mas além disso também a sede do Departamento de Botânica. E com isso também escapou a coleção de plantas secas, que se chama herbário, que é uma preciosidade também, única. Começou a ser constituída nos anos 1840. Então guarda exemplares da flora brasileira, e estrangeira também, absolutamente históricos, neste sentido. Inclusive alguns exemplares coletados pela Imperatriz Dona Leopoldina e pelo Imperador Pedro Segundo, que tinham interesses naturalistas importantes.

Além disso, o prédio do Departamento de Vertebrados, zoologia de vertebrados, que também já se tinha transferido para o novo prédio lá na área do Horto. E com isso também se preservou parte da coleção de vertebrados, porque a parte que estava em exposição lá em cima se perdeu. E se preservou os laboratórios – extremamente importantes, complexos – teria sido gravíssimo se tivéssemos perdido os laboratórios da zoologia dos vertebrados. Além disso outros pavilhões menores de arqueologia... arqueologia histórica - ou seja, arqueologia que se realiza no período histórico da nação brasileira, não na pré-história, e que é uma arqueologia muito importante hoje em dia. Todo o material e os laboratórios estão também neste Horto Botânico. É um laboratório de celenterologia...enfim, coisas de biologia marinha, áreas da biologia marinha que estavam também lá sediadas.

Bem, isso é para vocês terem uma ideia de como é o conjunto tradicional do Museu Nacional, que se estabeleceu dessa maneira. Embora o Museu tenha sido transferido da sua antiga sede no Campo de Santana para o Palácio em 1899, houve muitas mudanças neste longo período - inclusive a grande reforma do Palácio, visando transformá-lo de palácio residencial num museu. E a sua abertura para o grande público, a que meu pai, que nasceu em 1901, tinha assistido.

Bem, agora nós temos uma outra parte, além disso que eu relatei, depois do incêndio nós conseguimos a doação de um enorme terreno ao lado do Horto, depois da avenida que ladeia a Quinta. E que nós estamos chamando de um campus de pesquisa e ensino do Museu Nacional. São outros 45 mil metros quadrados onde vai ser construído todo o novo Museu, toda a nova parte acadêmica e científica do Museu. O Palácio de São Cristóvão vai ficar exclusivamente dedicado a exposições e ao atendimento ao ensino, e à museologia, que são as atividades ligadas propriamente às exposições.

Então os laboratórios, as coleções, os gabinetes de trabalho, as salas de aula (nós temos seis cursos de pós-graduação funcionando no Museu), tudo isso vai estar sediado neste novo campus.
E na semana que vem justamente, nós iremos inaugurar o primeiro prédio, um prédio temporário ainda, mas um prédio que vai abrigar toda a administração do Museu, e que está confinada nas frestas do prédio da biblioteca. Isso vai ser um grande salto. Lá nós teremos além de todas as instalações para as coleções, prédios para as coleções especificamente, prédios de laboratórios de pesquisa, prédios para as pós-graduações... teremos um centro de visitantes onde se realizará outras atividades de educação científica que não necessariamente dependerão do Palácio. Atividades mais amplas, para as escolas também. E sobretudo porque isso nos permitirá recomeçar a nossa atividade de ensino antes da restauração plena do Palácio, o que é muito importante.

Porque o Palácio vai ter que ser reformado, uma reforma de um prédio histórico é muito mais lenta e complicada do que uma construção.

Nós estamos prevendo que em 2022 com o ano do bicentenário da Independência, nós já teremos a possibilidade de abrir algumas salas da fachada do prédio. E com isso de certa forma começar a reinauguração do Palácio, mas esperamos em 2025 estar com ele totalmente aberto recuperado, com as exposições montadas, etc, etc, etc. Uma boa notícia que eu posso compartilhar com vocês é que nós, miraculosamente, estamos conseguindo apoio para todo esse trabalho de reconstrução e de recomposição do Museu, né? Quando...logo que acabou o incêndio, eu acho que era tão preocupante o incêndio em si, quanto a perspectiva de não conseguirmos apoio num país que não é lá dado muito à educação, à ciência e ao patrimônio. Mas nós temos conseguido recursos tanto públicos quanto privados. Não vou me deter aqui no quadro desses apoios, mas eles já estão nos permitindo avançar bastante intensamente na direção dos nossos desejos. Posso mencionar apenas o BNDES porque é o que financiou a construção desse prédio que está sendo inaugurado semana que vem, como eu mencionei. Mas há outros benfeitores importantes. Assim, com isso, vocês têm uma noção geral do que era, e do que é, e do que voltará a ser plenamente o nosso inestimável Museu Nacional.